terça-feira, 24 de julho de 2012

COMPERJ - Uma tragédia anunciada

Como nasce uma região: a construção do Leste Fluminense a partir da implantação do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – COMPERJ
por: Natália M. Gaspar – Ibase/RJ
Resumo:
O objetivo deste trabalho é discutir a reconfiguração do território a partir da implantação de grandes empreendimentos e os seus desdobramentos em relação ao tecido organizativo local. Para tanto, a proposta é analisar o "surgimento" de uma "região" denominada de Leste Fluminense, a partir da instalação do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), pela Petrobras, e da criação de um consórcio intermunicipal (Conleste) que reúne prefeituras de 14 municípios, com expressivo apoio do governo estadual, configurando um novo arranjo das forças políticas em torno da transformação do território. O Comperj teve sua instalação anunciada pela Petrobras em 2006 e constitui um dos maiores investimentos em andamento no país, de cerca de 8,4 bilhões de reais. Trata-se de uma refinaria de padrão internacional, capaz de refinar o petróleo pesado proveniente da Bacia de Campos e de gerar subprodutos de alto valor agregado, condizente, portanto, com o modelo de desenvolvimento que vem sendo implantando pelo governo federal. A intenção deste papel é abordar as relações entre a empresa, os governos e as organizações e associações locais diante do direcionamento de uma série de iniciativas para este conjunto de municípios, que implicam disputas por recursos e diferentes estratégias para lidar com os inúmeros impactos resultantes da instalação de um empreendimento desta magnitude.
Na última década, o Brasil tem atravessado um período de intenso crescimento econômico, alicerçado em investimentos de grande porte direcionados a grandes empreendimentos nos setores de infraestrutura, nas cadeias produtivas do petróleo e da mineração e no agronegócio, boa parte deles com financiamento público, através principalmente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e reunidos pelo governo federal sob o nome de “Programa de Aceleração do Crescimento” (PAC). Como salienta Grzybowski, a diferença em relação a períodos de crescimento anteriores (anos 50 e anos 70, por exemplo) é que agora “a justificativa é crescer para ter justiça social”. De fato, a redução do percentual de pessoas vivendo na miséria (independente do critério adotado para estabelecê-la), a ampliação do percentual da população considerada, grosso modo, como “classe média” e o salto dos empregos com “carteira assinada” e do valor real do salário mínimo são ganhos inquestionáveis e representam significativa diferença em relação a períodos anteriores de crescimento econômico.
No entanto, é cada vez mais patente a necessidade de incluir no debate as mazelas associadas ao “modelo de desenvolvimento” que está sendo implantado – em linhas gerais, industrialização ligada à intensa exploração de recursos naturais não renováveis e privatização de bens comuns, urbanização e exclusão. De acordo com o GT Combate ao Racismo Ambiental - que reúne organizações ambientalistas, trabalhistas, comunitárias, acadêmicas e movimentos sociais - “as injustiças ambientais recaem de forma implacável sobre grupos étnicos vulnerabilizados e sobre outras comunidades, discriminadas por sua origem ou cor.”.
De que maneira a antropologia pode contribuir para este debate?
A emergência de uma nova questão pública - a preservação do meio ambiente - parece constituir ao mesmo tempo o pano de fundo para pensar a emergência e a reformulação de conflitos sociais e o elo entre as diversas formas de exclusão inerentes ao modo capitalista de organização do trabalho humano e da natureza. Ao analisar a “ambientalização dos conflitos sociais”, Leite Lopes chama a atenção, entre outras coisas, para a necessidade de especificar a diferença dos usos e contextos de novas palavras de aparência unânime como “meio ambiente” e “participação”. E destaca a importância de analisar de forma etnográfica as manifestações singulares e a diversidade de práticas dentro da macro-instituição que chamamos de estado (2004:35).
A eclosão de conflitos ambientais em decorrência da implantação de grandes empreendimentos, de acordo com Acselrad, deve ser analisada enquanto dinâmica conflitiva própria do modelo de desenvolvimento em curso e constitui uma das formas encontradas por organizações e grupos para contestar a distribuição de poder sobre o território e seus recursos. A denúncia da prevalência da “desigualdade ambiental” traz à tona a maneira pela qual os custos ambientais são transferidos para grupos de menor renda e menos capazes de se fazer ouvir nas esferas de decisão (2004: 21).
O objetivo deste trabalho é discutir, de uma perspectiva antropológica, a reconfiguração do território a partir da implantação de grandes empreendimentos e os seus desdobramentos em relação ao tecido organizativo local. Foi elaborado a partir da minha inserção como pesquisadora da Organização Não Governamental (Ong) Instituto Brasileiro de Análises Econômicas e Sociais (Ibase) em dois diferentes projetos.
Primeiramente, coordenei projeto financiado por organização internacional voltada para a transparência (Revenue Watch Institute), que tem por objetivo o fortalecimento do controle social e a qualificação do debate público nos setores de petróleo e mineração.
No âmbito deste projeto, desenvolvi estudo de caso sobre o controle social no processo de licenciamento ambiental, a partir dos casos do Comperj e da TK-Csa (siderúrgica implantada pela joint venture Thyssenkrupp/Vale no município do Rio de Janeiro). Em seguida, passei a atuar como pesquisadora no projeto Indicadores da Cidadania – Incid, financiado pela Petrobras e destinado a 14 municípios que integram o consórcio intermunicipal do Leste Fluminense (Conleste – hoje constituído por 15 municípios). Minhas atividades neste projeto, até agora, consistiram principalmente na formulação de indicadores a partir de dados secundários e na realização de uma pesquisa amostral de fluxo com questionário fechado a respeito da percepção da população sobre questões relacionadas à cidadania.
A proposta deste trabalho é analisar o "surgimento" de uma "região" denominada de Leste Fluminense. A partir da instalação do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), pela Petrobras, e da criação de um consórcio intermunicipal (Conleste) que reúne prefeituras de 15 municípios, com expressivo apoio do governo estadual, o Leste Fluminense expressa um novo arranjo das forças políticas em torno da transformação do território. Este rearranjo se insere na convergência de diferentes interesses para a consolidação do estado do Rio de Janeiro como uma unidade federativa que agrega as diferentes fases da cadeia produtiva do petróleo – extração, refino e produção de bens de consumo.
O Comperj teve sua instalação anunciada pela Petrobras em 2006 e constitui um dos maiores investimentos em andamento no país, de cerca de 8,4 bilhões de reais.
Trata-se de uma refinaria de padrão internacional, capaz de refinar o petróleo pesado proveniente da Bacia de Campos e de gerar subprodutos de alto valor agregado, condizente, portanto, com o modelo de desenvolvimento que vem sendo implantando pelo governo federal. Ademais, é a principal obra do PAC no estado do Rio de Janeiro e conta com robusto financiamento do BNDES.
A partir de 2006, ano do anúncio pela Petrobras da instalação do Comperj no município de Itaboraí (RJ), uma nova configuração regional começa a se delinear. Ao final daquele ano, a constituição do Consórcio Intermunicipal pelo Desenvolvimento do Leste Fluminense – o Conleste -, amplamente apoiada ou mesmo estimulada pelo governo do estado, veio a evidenciar um esforço no sentido da instituição deste novo recorte regional.
Até então, os 15 municípios que hoje integram o Conleste ainda não haviam sido agrupados por nenhum recorte regional oficial, enquadrando-se em diferentes regiões.
Por exemplo, segundo do IBGE, distribuem-se por 3 mesorregiões geográficas do estado do Rio de Janeiro – Baixadas, Centro Fluminense e Metropolitana do Rio de Janeiro (que, por sua vez, subdividem-se em microrregiões). Segundo classificação do governo do estado, o atual Conleste se distribui pelas regiões Serrana, das Baixadas Litorâneas e Metropolitana. O governo do estado também divide o território estadual
De acordo com Adhemar Mineiro, a visão que prevalece no BNDES, o principal financiador da economia brasileira, é bastante otimista a respeito dos impactos positivos das grandes empresas, por seu potencial financeiro, tecnológico, gerencial e de mercado, entre outros, e suas sinergias, não apenas internas, mas também na articulação com uma cadeia de fornecedores, distribuidores e prestadores de serviços variados.
O Conleste é um consórcio intermunicipal, criado em outubro de 2006, reunindo à época as prefeituras de 11 municípios fluminenses: Itaboraí, São Gonçalo, Niterói, Maricá, Tanguá, Magé, Guapimirim, Rio Bonito, Silva Jardim, Casimiro de Abreu e Cachoeiras de Macacu. Em 2009, o município de Saquarema passou a integrar o consórcio, seguido, em 2010, por Teresópolis, em 2011, por Araruama e em 2012, por Nova Friburgo. Diferentemente dos convênios, os consórcios são acordos celebrados entre pessoas públicas do mesmo nível de governo. Dos consórcios celebrados entre pessoas públicas, os mais comuns são aqueles pactuados entre municípios. O Conleste é um consórcio intermunicipal, dotado de personalidade jurídica de direito privado, cujos lucros eventuais não são repartidos entre os associados, mas reaplicados integralmente nas atividades-fim, e sujeita-se às normas civis aplicáveis a toda e qualquer associação civil, mas a peculiaridade de ser constituído por pessoas públicas, faz com que as normas de direito público aplicáveis aos municípios consorciados (como realização de concurso público e licitação) sejam igualmente exigidas do consórcio, entidade civil (Fundação Prefeito Faria Lima – Cepam. Unidade de Políticas Públicas – UPP, 2001), por regiões hidrográficas, que não necessariamente coincidem com os limites municipais, e que são associadas à criação de comitês de bacia, aos quais é atribuído o gerenciamento dos recursos hídricos. Por este critério, os 15 municípios do consórcio estão inseridos em 4 regiões hidrográficas – Piabanha, Baía de Guanabara, Rio Dois Rios e Lagos São João. De acordo com Pierre Boudieu, “o discurso regionalista é um discurso performativo, que tem em vista impor como legítima uma nova definição das fronteiras e dar a conhecer e fazer reconhecer a nova região assim delimitada – e, como tal, desconhecida – contra a definição dominante, portanto, reconhecida e legítima, que a ignora. O ato de categorização, quando consegue fazer-se reconhecer ou quando é exercido por uma autoridade reconhecida, exerce poder por si...” (1989: 116, grifo da autora).
Para o geógrafo Haesbaert, a importância da categoria região para a análise do mundo contemporâneo se dá diante do entendimento de que há na atualidade uma contínua redefinição de papéis, funções, conflitos e regionalismos, como consequência da globalização e de sua inserção/influência desigual em termos espaciais (2010). A iniciativa das administrações públicas daqueles 11 municípios (inicialmente) no sentido de estabelecer e fazer reconhecer a região do Leste Fluminense veio a encontrar reconhecimento, primeiramente, no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) referente ao licenciamento das instalações do Comperj no sítio principal em Itaboraí.
Estes estudos devem estabelecer as “áreas de influência” dos empreendimentos, definindo municípios que serão alvo de ações específicas para “mitigação” de impactos, e geralmente de uma série de ações que podem grosso modo ser denominadas de “compensações sociais e ambientais”. Minimamente, devem ser definidas áreas de 7. A divisão do estado em regiões hidrográficas está associada à criação dos comitês de bacia hidrográfica
“para gerenciar o uso dos recursos hídricos de forma integrada e descentralizada, com a participação da sociedade”, de acordo com o Instituto Estadual do Ambiente (INEA - http://www.inea.rj.gov.br/recursos/comite.asp). Ainda de acordo com o órgão ambiental estadual, esses colegiados, instituídos pela lei que estabeleceu a Política Estadual de Recursos Hídricos (3.239/98), são compostos por representantes do Poder Público, da sociedade civil e de “usuários de água” e têm poder consultivo, normativo e deliberativo. A partir dos comitês, o estado do Rio de Janeiro foi dividido em 10 Regiões Hidrográficas, “de acordo com afinidades geopolíticas e as bacias que abrangem”. É função dos comitês de bacias articular a atuação de entidades intervenientes, aprovar critérios de cobrança e o plano de bacia, inclusive acompanhando sua execução.
Minhas primeiras reflexões neste sentido e o levantamento das informações ocorreram no âmbito da elaboração de parte do relatório Introdução ao Incid – Indicadores da Cidadania, do Ibase, influência “direta” e “indireta”

Mapa 1 – Área de Abrangência Regional do Comperj (primeiros municípios a integrar o Conleste) – 2007 Fonte: EIA 2007. Petrobras/Concremat Engenharia O respaldo do governo estadual veio a ser consolidado através da criação pelo governador do “Fórum Comperj” – Fórum para o Desenvolvimento da Área de Influência do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, em 2007, com vistas a criar ferramentas de gestão e planejamento de políticas regionais. O Fórum Comperj é presidido pelo governador e dele participam, como parceiros institucionais, todas as secretarias do Estado, todas as prefeituras dos municípios integrantes do Conleste, a Assembleia Legislativa, o Ministério das Cidades, o BNDES, a Caixa Econômica Para compreender melhor o processo de licenciamento ambiental no Brasil.
Federal e a Petrobras S.A..
Sob a perspectiva de inserção em uma nova lógica de recorte territorial, impulsionada pela instalação do Comperj e pela disputa pelos recursos a ela associada, outras administrações municipais passaram a ambicionar a sua inclusão na região do Leste Fluminense e, portanto, no consórcio intermunicipal que a representa. Em 2009, o município de Saquarema passou a integrar o Conleste, seguido, em 2010, por Teresópolis, em 2011, por Araruama e, em 2012, por Nova Friburgo. Hoje o Conleste é composto por 15 municípios. O poder legislativo, além de integrar o Fórum Comperj, também busca acompanhar e construir um posicionamento diante das transformações do Leste Fluminense. A Comissão Especial para Discutir e Construir a Interlocução com os Municípios que Sofrem a Influência do Comperj junto à Petrobras realiza Audiências Públicas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) durante as quais têm voz organizações da sociedade civil destes municípios, diante de uma mesa composta por representantes do órgão ambiental estadual responsável pelo licenciamento e das empresas responsáveis pelas diferentes partes do empreendimento (Petrobras, Comperj S.A., Transpetro). Alguns legislativos municipais também procuram um posicionamento, através da realização de audiências públicas sobre impactos mais específicos de seus municípios, como, por exemplo, a audiência “Impactos do Comperj sobre a Mobilidade Urbana no Município de São Gonçalo”, promovida pela Câmara de Vereadores. Para além das iniciativas claramente impulsionadas pela Petrobras e pelos governos, o setor industrial também expressa a consideração do Leste Fluminense em seus planos. Anualmente, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN) elabora uma pesquisa junto aos investidores públicos e privados sobre as intenções de investimentos no estado. A última edição da pesquisa, publicada em 2010 e referente aos projetos anunciados até o mês de julho de 2009, compila valor de investimentos da ordem de R$ 126 bilhões em mais de 100 projetos. O estudo da Firjan identifica 4 “eixos de desenvolvimento” no estado: eixo Sepetiba (portos, rodovias e indústrias), eixo Norte (Bacia de Campos e Complexo Logístico do Açu), eixo Sul (Usina Nuclear Angra 3). O eixo leste está apoiado na construção do Comperj.
O desenvolvimento que pode ser induzido na região, de  acordo com esta pesquisa, “não se limita a indústria de fabricação de materiais de plástico. Há perspectiva de um amplo espectro de investimentos no setor de serviços de apoio, além de oportunidades no setor terciário e na construção civil. Cabe destacar, também, a construção do Arco Metropolitano, rodovia que ligará o Comperj ao Porto de Itaguaí”.
Conhecida e reconhecida, portanto, por todas as esferas de governo e pelo principal agente econômico das transformações vindouras – a Petrobras, além do setor industrial fluminense como um todo, a região do Leste Fluminense surge intimamente associada à criação da Comperj e ao seu papel na consolidação da cadeia produtiva do petróleo no estado do Rio. A partir de então, genericamente tratado como “área de influência” do Comperj, o Leste Fluminense passou a ser beneficiado por uma série de iniciativas e “projetos” impulsionados pela presença da Petrobras na região. Entre eles, por exemplo, figura o projeto “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – Municípios do Conleste”. Segundo Caetano, este é parte de um projeto maior que a Petrobras S/A vem empreendendo em diversos lugares do mundo com o objetivo de monitorar os impactos de sua atividade industrial, segundo objetivos estabelecidos pela ONU através do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (UN-HABITAT) (2010: 11). O projeto visa alcançar estes objetivos nos 11 municípios que originalmente compunham o Conleste. Para tanto, foi constituído um banco de dados georreferenciado com informações socioeconômicas e ambientais sobre a região.
O trabalho culminou com o estabelecimento de 9 Objetivos e, para cada um deles, foram acrescidas metas e indicadores específicos, somando-se 23 metas e 58 indicadores. Além disso, de acordo com Caetano, desde 2007, são realizados anualmente seminários para divulgação dos dados.
Outra iniciativa da Petrobras no sentido de tratar como um conjunto os municípios do Leste Fluminense foi a inclusão de 14 deles (os 11 primeiros, mais Saquarema, Nova Friburgo e Teresópolis) no projeto Agenda 21 Comperj. O projeto resultou em uma publicação que consolida o resultado de atividades que envolveram representantes dos governos, do empresariado e de organizações da sociedade civil, e na formação, em cada um dos municípios, de Fóruns de Agenda 21, que hoje constituem instâncias de interlocução para tratar de assuntos referentes aos municípios. Falaremos mais adiante sobre esta instância de “participação”. Além disso, a constituição e o funcionamento dos Fóruns locais também contribui para a constituição de uma rede de pessoas nos 14 municípios envolvidos, propiciando o fortalecimento de uma comunicação intrarregional.
Nesta direção, o projeto Indicadores da Cidadania (Incid), do Ibase, financiado pelo setor de Comunicação Institucional da Petrobras, vem se somar a um conjunto de iniciativas destinadas ao Leste Fluminense, abrangendo o mesmo conjunto de 14 municípios beneficiados pela Agenda 21 Comperj.
A produção de dados a respeito dos diferentes territórios que compõem a região do Leste Fluminense, tratada como tal, corrobora e alimenta a necessidade de construção de um discurso no sentido de reafirmar o estabelecimento desta divisão regional, divisão esta impulsionada e sustentada pela instalação de um empreendimento da magnitude do Comperj e fruto de negociações com autoridades governamentais de diferentes níveis.
Analisando historicamente as instituições políticas ocidentais, Foucault chama a atenção para o surgimento da estatística, no século XVII e, no século XVIII, da economia como um nível de realidade, um campo de intervenção específico do governo, e da “população”, como alvo das ações do governo. Embora a arte de governar estivesse ligada aos aparelhos de governo e ao conhecimento do Estado, desde que um conjunto de saberes e análises – a estatística – adquiriu toda importância no século XVII, Foucault afirma que a arte de governar (em oposição à soberania, que tem um fim em si mesma) foi “desbloqueada” em conexão com a emergência do problema da população.
Dali em diante, “as técnicas de governo se tornaram a questão política fundamental e o espaço real da luta política” (1996: 288).
Na reedição do livro Comunidades Imaginadas, Benedict Anderson analisa a formação de nações a partir das regiões coloniais do Sudeste Asiático e identifica três instituições de poder que, juntas, moldaram a maneira pela qual o Estado imaginava o seu domínio – “a natureza dos seres humanos por ele governados, a geografia do seu território e a legitimidade do seu passado”: o censo, o mapa e o museu (2009: 227). Até agora, foi possível observar que as informações produzidas a respeito do Leste Fluminense não partiram do governo, mas foram fruto de iniciativas empresariais (Petrobras, Firjan), que foram executadas em parceria com instituições de conhecimento (universidades públicas) e da sociedade civil (Ibase, organizações que integram a Agenda 21, etc.). Em todos estes conjuntos de informações, e também nos bancos de dados oficiais (que não apresentam o recorte regional do Leste Fluminense), a divisão por município é de importância cardinal.
O município como instância territorial é a menor unidade de poder no âmbito da administração pública. Com a Constituição de 1988, o município passou a responder pela gestão de uma quantidade de recursos jamais antes vista. Modesto, em tese na qual analisa a implantação de vários “projetos de desenvolvimento”, que envolvem agentes públicos e privados de diferentes escalas, no município de São Gonçalo, identifica que passam a vigorar “novas formas de fazer política que passam pelos incentivos fiscais, pela qualificação profissional e pelo estímulo ao empreendedorismo”, e que as prefeituras sofrem pressões destas instituições e passam a ter de se adequar a esse movimento (2008: 197).
Ao mesmo tempo, como unidade mínima de apresentação das informações pela maior parte dos bancos de dados oficiais, a partir dos quais são elaborados os conjuntos de dados especificamente dirigidos ao Leste Fluminense, são praticamente inevitáveis as comparações entre os municípios que compõem esta nova região, que passa a ser tomada como média para a avaliação de suas partes.
Estes elementos, tanto da esfera administrativa – no sentido de decisões e planejamentos de âmbito regional aos quais devem se adequar os agentes da escala municipal; e no sentido da escala municipal como unidade dentro da qual devem se classificar as organizações que queiram tomar parte na disputa por recursos e benefícios dos “projetos” – quanto da esfera da produção de representações sobre o Leste Fluminense e sobre as unidades mínimas que o compõem – os municípios – convergem no sentido de adequar a ação de diferentes agentes, vinculados em diferentes escalas, ao projeto hegemônico em processo de implantação na região.
Por outro lado, a percepção dos grupos populacionais destes municípios a respeito desta nova divisão regional parece ser, de uma maneira geral, de estranhamento, e varia segundo a posição social e a localização destes grupos no território. Em “visitas municipais” realizadas pela equipe do projeto Indicadores da Cidadania, do Ibase, lideranças reunidas pelos Fóruns das Agendas 21 Comperj questionaram a apresentação dos indicadores por município, desconsiderando as especificidades de bairros, distritos ou localidades. Foi questionada, inclusive, a denominação da região como Leste Fluminense. Em outra fase do projeto, por ocasião do trabalho de campo para aplicação de questionários, foi possível perceber que, para muitos dos moradores de bairros ou distritos afastados do centro urbano (afastados pela distância física ou pelas más condições de transporte, ou ambas) o nome do município é associado ao centro. Nestes casos, as pessoas se identificam como moradores das localidades. Isto acontece, por exemplo, no distrito de Duques, onde as pessoas se referem ao centro como “Tanguá”; o mesmo acontece em Guapiaçu (localidade do distrito de Subaio), para cujos moradores “Cachoeiras de Macacu” é o centro da cidade.
Esta tendência se revelou ainda mais forte em Guia do Pacobaíba, que os moradores identificam como uma localidade dentro de Mauá, ou Praia de Mauá. A referência a Magé como município de residência requer de muitos entrevistados alguns segundos de reflexão.
Os resultados da referida pesquisa quantitativa ainda estão sendo analisados, mas é possível antecipar que, de uma maneira geral, os moradores percebem desigualdades entre diferentes localidades dentro dos municípios no acesso a serviços como saúde, educação e em relação às condições do meio ambiente – como a qualidade da água, do ar, e a limpeza das ruas e praças. Ou seja, há uma percepção difusa sobre a desigualdade no interior dos municípios.
De uma maneira geral, no âmbito de uma pesquisa quantitativa que procurou captar a percepção difusa da população de 14 municípios, através de amostragem, é preciso notar que há uma percepção bastante otimista quanto à perspectiva de que haja mudanças para melhor nos territórios pesquisados. Em localidades de municípios como Itaboraí e Tanguá, essas mudanças foram diretamente atribuídas à implantação do Comperj, segundo relato dos entrevistadores.
No entanto, ao contrário das expectativas geradas na população, as transformações pelas quais a região do Leste Fluminense tende a passar nos próximos anos podem ser semelhantes àquelas enfrentadas por outras regiões onde se instalaram grandes empreendimentos. Algumas destas transformações são consideradas típicas: “migrações, com consequente estrutura demográfica atípica, composta por elevado coeficiente de homens jovens; favelização, prostituição e criminalidade; espaços urbanos não equipados; despreparo do poder público local, que faz concessões que enfraquecem os cofres municipais e que assiste à ocupação não planejada das beiras de estradas, rios, canais e encostas de morros e à consequente sobrecarga no uso dos equipamentos coletivos, sem cuidar de sua ampliação e modernização” (Piquet 2007 apud Herculano 2010).
Sobre a região impactada pela exploração de petróleo offshore na Bacia de Campos, que inclui municípios do Norte Fluminense e das Baixadas Litorâneas (Região dos Lagos), Serra constata os seguintes aspectos: “fragilidade da norma de distribuição dos royalties e participações especiais; contratação pelas prefeituras de pessoas físicas e jurídicas de forma terceirizada (pela impossibilidade de ampliar o quadro de pessoal com recursos do petróleo); existência de processos de alocação dos recursos para fins distantes da política de promoção da justiça intergeracional [alternativas econômicas para quando o petróleo acabar]; financeirização das rendas petrolíferas (para pagamento de dívidas com a União e capitalização de fundos previdenciários, segundo as Medidas Provisórias 1869/99 e 2103/2001); facilitação para as elites políticas e econômicas do processo de privatização de importantes fundos públicos; falta de controle social destes recursos. (2007: 99)”.
Monié, ao examinar as dinâmicas territoriais e culturais provocadas pelas atividades petrolíferas no norte-fluminense, observou os seguintes aspectos: “o enriquecimento de parte da população e o afluxo de trabalhadores pobres sem qualificação; o surgimento de áreas de residência e de consumo de alto padrão social e a expansão de bolsões de pobreza; o aumento das desigualdades intra-regionais entre Relatório Indicadores da Cidadania – Cidadania Percebida, do Ibase, ainda em versão preliminar e não disponível.  campo e cidade e entre centros urbanos mais ou menos inseridos na nova economia regional; o caráter desigual das dinâmicas em curso; a implantação de uma cultura empresarial moderna, que leva à necessidade da oligarquia tradicional reformular suas estratégias para manter a hegemonia; novas estratégias residenciais e demandas por equipamentos comerciais e culturais modernos.” (2003 apud Herculano 2010).
Análises específicas sobre a cidade de Macaé, a “capital nacional do petróleo”, e frequentemente acionada como exemplo negativo do tipo de “desenvolvimento” que se quer evitar, apontam a seguinte situação: Houve sensível crescimento do emprego formal, crescimento urbano e econômico. Este crescimento foi, entretanto, acompanhado pela favelização, pela violência e tráfico de drogas e pela degradação ambiental (principalmente poluição dos corpos hídricos). Não houve sequer universalização da rede de esgotamento sanitário (Herculano 2010).
O papel de Wilson Madeira Filho trata de elementos relacionados à divisão básica do trabalho na indústria de petróleo e gás de Macaé, caracterizada pela criação de novo contingente de assalariados com remunerações médias acima da média da região, simplificação gerencial, desregulação do trabalho e terceirização. De uma maneira geral, aponta como consequências a fragmentação sindical e o aumento dos acidentes de trabalho. De acordo com este autor, desde meados dos anos 90, a Petrobras tem optado preferencialmente pela não renovação de quadros próprios através de concurso público.
Assim, há 3 categorias de trabalhadores na indústria analisada: funcionários próprios da Petrobras (concursados) – trabalhadores “de elite”; funcionários terceirizados dentro da Petrobras – trabalhadores no final da “cadeia alimentar”; e funcionários de outras empresas do setor privado que prestam serviços à Petrobras – intermediários entre os primeiros e os segundos.
Pode-se supor que a região de implantação do Comperj possa apresentar análoga divisão de categorias de trabalhadores a partir do início da sua operação. A fixação de residência destes trabalhadores de diferentes categorias poderá contribuir para reforçar as desigualdades intrarregionais, entre campo e cidade e entre centros urbanos mais ou menos inseridos na nova economia regional, apontadas acima por Monié.
A comparação com os conflitos em torno da operação da Refinaria de Duque de Caxias (Reduc) acrescenta elementos para a análise sobre a região do Comperj, visto tratar-se de uma refinaria. Sobre a região onde foi instalada, em 1961, a Reduc, a tese de Sebastião Raulino aponta conflitos em torno de obras pontuais – como obras que causaram enchentes em determinadas ruas; conflitos com moradores em função da precariedade dos bairros do entorno da refinaria; conflitos quanto ao uso da água para fins industriais enquanto a oferta de água tratada para a população é precária. No caso do Comperj, a dimensão do empreendimento é no mínimo três vezes maior do que a Reduc, e os municípios mais próximos apresentam perfil socioeconômico semelhante a Duque de Caxias, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Herculano destaca o conflito em torno da vazamento da Reduc na Baía de Guanabara. Cerca de 20 mil pescadores do entorno da Baía da Guanabara (Niterói, São Gonçalo, Guapimirim, Magé, Itaboraí e, no Rio de Janeiro, as regiões do Caju, Ilha do Governador, Marcílio Dias, Ramos e Paquetá) moveram ação legal no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro - TJ-RJ, pedindo indenização por conta do vazamento de óleo proveniente da Reduc no dia 18 de janeiro de 2000. A Petrobrás foi condenada em primeira instância, mas recursos deram prosseguimento à questão. (Divulgado pela imprensa na época, não haviam sido concluído seus trâmites.). Verbas indenizatórias do derrame de óleo na Baía de Guanabara foram utilizadas na realização de seminário e pesquisa sobre ambiente pela UFRJ.
A percepção de participantes de organizações da sociedade civil e de movimentos sociais a respeito da implantação do Comperj e das transformações a ele associadas é distinta da percepção difusa revelada pela pesquisa quantitativa. Estas lideranças apresentam pontos de vista mais críticos em relação às transformações vindouras e procuram se articular para lidar com estas mudanças.
Os principais conflitos, até agora, referiram-se ao questionamento, por parte de organizações ambientalistas e gestores de unidades de conservação, da localização próxima a áreas protegidas (APA de Guapimirim e Estação Ecológica da Guanabara, principalmente) e da utilização de grande volume de recursos hídricos, em uma região 14 Giuliani chama a atenção para o fato de que, embora, do ponto de vista empresarial, as razões da escolha de Itaboraí sejam as mais "racionais" - a localização naquela área colocará o COMPERJ em posição logística muito favorável: disponibilidade de terrenos baratos, proximidade dos maiores centros urbanos, de terminais portuários, de aeroportos, de refinarias e polos gases-químico, populosa e já caracterizada pela escassez. Foram questionados, também, os impactos sobre os meios de vida dos catadores de caranguejo da comunidade de Itambi, no  município de Itaboraí.
Com o avanço das obras, cresce a articulação em torno do Fórum Popular Comperj, que reúne associações de moradores e pescadores atingidos pela construção do empreendimento e organizações que procuram mobilizar a população com vistas às transformações que estão por vir, tais como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Este fórum realizou seu primeiro encontro em maio de 2012. De acordo com representante do Sindipetro-RJ em entrevista, antes mesmo da implantação do projeto Agenda21 Comperj, a Petrobras estimulou a organização de grupos e associações dos 14 municípios a formarem conselhos comunitários: “Então cada município criou um conselho comunitário do Comperj, que era composto de ONGs, associações de moradores, rotary clubes, maçonaria, centro espírita, o que você imaginasse, tinha. (...) Cada município tinha uma estrutura com 20, 30 – dependendo do tamanho do município e da importância dele, ele tinha um número maior ou menor de participantes nos conselhos comunitários municipais, que juntos formavam o regional [Conselho Comunitário Regional do Comperj – Concrecomperj]. Então a gente [Sindipetro-RJ] participou disso”.
Entrevista com Edison Munhoz, Coordenador da Secretaria Jurídica do Sindipetro – RJ, Secretário de Meio Ambiente da Central Única dos Trabalhadores (CUT-RJ) e Coordenador Geral do Concrecomperj. Entrevista realizada no âmbito do projeto Observatório do Pré-sal/Ibase, em abril de 2011.
A disponibilidade de uma vasta malha rodoviária e, sobretudo, imediato acesso ao futuro anel rodoviário Itaguaí-Niteroi – do ponto de vista da política ambiental do Estado do Rio de Janeiro, “esta localização foi considerada absolutamente imprópria, seja pelo Conselho Gestor da Apa de Guapimirím, seja pelo Conselho Gestor do Mosaico das Unidades de Conservação da Mata Atlântica Central Fluminense” (2008b: 11). Em 5 de maio de 2011, o jornal O Globo noticiava a construção de barragem no rio Guapiaçu para abastecimento do Comperj, revelando a opção pelo impacto sobre as áreas protegidas, diante das demais alternativas expostas até então. O surgimento de uma alternativa melhor foi anunciada pelo Secretário de Estado do Meio Ambiente, Carlos Minc, durante audiência pública realizada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), no dia 30 de maio subsequente, pela “Comissão Especial para Discutir e Construir a Interlocução com os Municípios que Sofrem a Influência do Comperj junto à Petrobras”. A exposição de Minc teve início com a explicação de que a água para abastecer o Comperj não pressionará rios e lagos da região, pois será utilizada água de esgoto tratada. Eloise Botelho, em Dissertação de Mestrado sobre conflitos na gestão do Parque Estadual da Serra dos Três Picos, afirma que, ao reverter a análise dos impactos negativos em positivos, o RIMA desconsidera o problema crônico da questão hídrica regional e passa a responsabilidade de gestão dos recursos hídricos, que é estatal, ao COMPERJ. Além disso, não é possível garantir que a empresa responsável pelo empreendimento irá de fato atender às carências regionais de abastecimento e saneamento. (...)
Segundo o entrevistado, o interesse da empresa era obter uma certificação internacional: “a Petrobras precisava dar uma resposta à ISO 1400018, que dizia que para ter negociado na bolsa de valores de Nova York ações, você tem que fazer esta pesquisa e garantir a participação popular, a aprovação, na verdade, aprovação popular neste projeto.”.
N: Esses conselhos comunitários surgiram então com o apoio da Petrobras?
EM: Sim, com o apoio da Petrobras. Inclusive com dinheiro.
N: Com dinheiro da Petrobras?
EM: Através de ONGs de meio ambiente. Então, ela aproveitou isso também porque não havia nesses locais a Agenda 21 na maioria deles, com exceção de 2 ou 3 municípios. Ela criou a Agenda 21 para facilitar a aprovação de um PLDS [Plano Local de Desenvolvimento Sustentável] que facilitasse o interesse da Petrobras. A Petrobras uniu a necessidade que ela tinha de fazer com que houvesse, por parte da comunidade, o controle social. Ela era obrigada a ter esse controle social. Que pra ela, na verdade, o que interessava, era a participação desse pessoal para referendar. Onde, nos momentos em que realmente houve participação popular, e que se bateu de frente com a Petrobras, ela mostrou a verdadeira face dela, que era de usar como massa de manobra, usar pra assinar embaixo o projeto dela, as comunidades. Isso gerou um grande tumulto com o passar do tempo, porque ficou bem claro que ela não queria muita discussão sobre o tema. Ela queria ser referendada nas possibilidades dela e usar a Agenda 21 local, transformar o local em Comperj, fazer um misto, onde os prefeitos usaram, sempre que eles podiam, para colocar seus pares nesta Agenda 21 local. Isso gerou ações iniciais, gerou mais conflitos, porque ficou muito claro que a ideia não era a participação popular, a ideia era que, gente que tivesse interesse em comum com o projeto, viesse a subscrever, a referendar a proposta da Petrobras. Isso levou algum tempo para ficar claro.”
O discurso desta liderança reforça a constatação de Acselrad de que os conflitos sociais têm sido constrangidos “pelo estreitamento do espaço aberto para sua politização, espaço onde os mesmo poderiam vir a ser trabalhados na perspectiva de ISO 14000 é um conjunto de normas desenvolvidas pela International Organization for Standardization (ISO) e que estabelecem diretrizes sobre a área de gestão ambiental dentro de empresas.
Uma construção crescentemente democrática do território. (...) Tecnologias de formação de consenso são então formuladas de modo a caracterizar todo litígio como problema a ser eliminado. E todo conflito remanescente tenderá a ser visto como resultante da carência de capacitação para o consenso e não como expressão de diferenças reais entre atores e projetos sociais, a serem trabalhadas no espaço público” (2004:29).
Como chama a atenção Leite Lopes, a partir da etnografia de situações como as de conselhos locais, audiências públicas e outras instâncias “participativas” é que transparecem os “efeitos de dominação exercidos pela presença técnica de expertise, bem como o abafamento e a falta de espaço de diálogo com o saber leigo”. Mas ressalta que a “eficácia de conselhos locais de meio ambiente e de programas de Agenda 21 locais geralmente depende da experiência da participação política da população, de sua história de mobilização” (2004:29).
No caso analisado, o entrevistado reconhece que “o Concrecomperj perdeu um pouco de credibilidade e passou a ter uso político, partidário, pessoal que a gente tem tentado no último ano, um ano e pouco, resgatar.” Mas vê o conselho como “uma ferramenta social muito importante, muito boa, que pode ajudar a pressionar o interesse popular.” Segundo o sindicalista, hoje estão mais à frente do Concrecomperj as federações de moradores de Itaboraí, Niterói, São Gonçalo, Nova Friburgo e Maricá, bem como os sindicatos. E enxerga ganhos na apropriação de alguns destes conselhos locais por parte das comunidades: “Em alguns locais, esses conselhos criados pelo Comperj, acabaram virando conselho comunitário local. Maricá é um exemplo. Friburgo é outro. São Gonçalo é outro. Esse conselho do Comperj acabou virando conselho comunitário municipal. Em Maricá, por ser conselho comunitário municipal... Ele tem os sindicatos locais, o Sepe [Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação], Sindipetro, sindicato dos professores, e Sindisprev comunitário, que tem base em
Maricá. São 4 sindicatos, várias ONGs, ele acabou virando um conselhão muito grande.
Hoje não é mais só do Comperj. Em Maricá, o procurador diz que nós somos um governo paralelo. Ele tem tanto peso, é tão grande, tem tantas entidades de peso, que abava virando quase... que fiscaliza o governo. A verdade é essa. Em alguns locais, infelizmente, esses conselhos acabaram sendo trampolim para cargos políticos na prefeitura. Outros não. Outros continuam sendo de luta, mas isso é uma coisa natural da vida.”
O Concrecomperj também tem sido convidado a participar de diferentes conselhos locais, o que é percebido pelo entrevistado como uma estratégia importante para influenciar as políticas públicas de alguns municípios: “A gente tem sido convidado, por alguns prefeitos que fazem parte do Conleste, para participar, por exemplo, do Conselho de Saúde de Itaboraí, de alguns conselhos de meio ambiente municipais, de conselhos de educação, de emprego e renda, para, através desses conselhos, a gente participar do Conleste. É uma participação indireta, mas é importante. Esses conselhos são o que dão, muitas vezes, embasamento para as ações da prefeitura.”
Finalmente, cabe chamar a atenção para a organização e as prolongadas greves dos trabalhadores da construção do Comperj. Trata-se de uma imensa massa de trabalhadores temporários (de acordo com uma liderança ligada ao Fórum Popular Comperj, 18.632 trabalhadores, contabilizados na última reunião de negociação entre o sindicato e os consórcios responsáveis pelas obras – maio/2012; no auge da obra, devem chegar a 32 mil), cuja rotatividade depende das especificidades de cada parte que está sendo construída, relacionadas no cronograma das obras. A imensa maioria dos trabalhadores é do sexo masculino e metade é natural de outros estados do Brasil, especialmente da região Nordeste, segundo informações da imprensa. São contratados por 9 consórcios, cada um deles formados por várias empresas, encarregadas da construção de diferentes partes do empreendimento, segundo contratos de trabalho diferentes. Realizando assembleias que chegam a reunir 10 mil trabalhadores, em um movimento grevista que durou cerca de seis meses (dezembro de 2011 a maio de 2012, com interrupções), os trabalhadores lutam, de uma maneira geral, pelo estabelecimento de um piso salarial para os empregados de diferentes consórcios, pelo direito de retornar para visitar suas famílias com passagens pagas e mais dias de folga, pelo aumento do valor fornecido para as refeições (devido à elevação do custo de vida no local), e buscam responsabilizar a Petrobras pela situação de precariedade na qual se encontram. A presença desta grande quantidade de trabalhadores traz mudanças para o sindicalismo local e sua organização começa a estabelecer um diálogo com o fórum que reúne a população local atingida.
De acordo com uma liderança do Fórum Popular Comperj, organização que estabeleceu uma relação de solidariedade com o movimento grevista, frequentando assembleias e convidando trabalhadores para as suas reuniões, o “sindicato dos trabalhadores da construção civil [de São Gonçalo] é filiado à CUT e não tem tradição de grandes mobilizações ou mesmo paralisações, visto que eles nunca atuaram junto a um canteiro de obra da dimensão do Comperj. Essa situação é visível com as lideranças novas que estão surgindo durante esse período. A grande maioria dessas lideranças não tinha nenhum vínculo com o sindicato.” Assim sendo, é possível observar que o surgimento do Leste Fluminense enquanto região está associado a um projeto hegemônico que reúne interesses governamentais e empresariais em torno do posicionamento do estado do Rio de Janeiro e do Brasil na organização econômica global. Grzybowski bem caracteriza esta conjuntura: não “se trata de mudar substancialmente, mas de crescer e aproveitar-se do momento do “Brasil emergente”, num mundo capitalista de desenfreada competição entre conglomerados e países, onde uns sobem enquanto outros vão para o brejo”.
É possível perceber na região estudada forças que convergem no sentido de adequar a ação de diferentes agentes, vinculados em diferentes escalas, ao projeto hegemônico em processo de implantação na região. Desse modo, governos, populações e organizações locais devem adotar novos procedimentos – como o empreendedorismo, a capacitação, ou o realinhamento e a articulação com outros atores – tanto para colher os benefícios prometidos pelo progresso quanto para denunciar e contestar seus princípios.
De que maneira a criação do Leste Fluminense, de forma hegemônica, modificará as condições, os modos de vida e os pertencimentos de seus habitantes?
Quais segmentos da população local serão beneficiados pelo advento do Comperj e a transformação do Leste Fluminense em uma região industrial? Experiências anteriores mencionadas acima como a região do entorno da Reduc, a cidade de Macaé e a “região de influência” da Bacia de Campos apontam para a ampliação de desigualdades no interior destas regiões, com locais que tendem a se adequar às necessidades de novas elites locais em contraposição a outras partes do território que passam a abrigar bolsões de pobreza e de exclusão.
É possível visualizar uma sociedade civil mais atuante no decorrer das obras e do funcionamento do complexo? Ao mesmo tempo em que há incentivos à participação e à formação de organizações, grande parte dos espaços criados neste sentido tendem a privilegiar o saber de uma expertise em detrimento do saber leigo, restringindo as possibilidades de participação efetiva de determinados grupos. Além disso, as tecnologias de formação de consenso tendem a obliterar contradições estruturais e vozes que se contrapõem ao modelo hegemônico. Por outro lado, o acirramento das desigualdades e dos “impactos negativos”, bem como perspectivas de articulação de grupos locais com organizações e movimentos sociais mais experientes abrem novas perspectivas de lutas.
 
BIBLIOGRAFIA:
Acselrad, Henri – “As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais”, in: Acselrad, Henri (Org.). Conflitos Ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004, p.13-35.
Anderson, Bennedict. Comunidades Imaginadas. Reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Botelho, Eloise. Conflitos na Gestão de Parques: o caso do Conselho do Parque Estadual dos Três Picos. Dissertação de Mestrado. EICOS/UFRJ, 2009.
Bourdieu, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S.A., 1996.
Caetano, Priscila Freire. Consórcio Intermunicipal do Leste Fluminense (Conleste): organismo de gestão de políticas públicas e cooperação regional no território fluminense. Graduação em Geografia, PUC-RJ.
Foucault, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal,1979.
Fundação Prefeito Faria Lima – Cepam. Unidade de Políticas Públicas – UPP, 2001
Gaspar, Natália Morais/Observatório do Pré-sal e da Indústria Extrativa Mineral/Ibase. Limites e Potencialidades do Controle Social no Processo de Licenciamento Ambiental. 2011.
Giuliani, Gian Mario & Pinto, Raquel Giffoni. B. “As áreas naturais protegidas e o crescimento econômico no seu entorno”, in: IV Encontro Nacional da Anppas, GT6 – Justiça Ambiental, Conflitos Sociais e Desigualdades. Brasília, junho de 2008.
Governo do Estado do Rio de Janeiro. Plano Estratégico 2007-2010. Disponível em http://www.observatoriodopresal.com.br/?p=234
Grzybowski, Cândido – Megaobras desrespeitam cidadania de operários. Disponível em http://www.canalibase.org.br/grandes-obras-mas-a-cidadania-nem-tanto/
Haesbaert, Rogério. O Mito da Desterritorialização. Do “Fim dos Territórios” à Multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
Herculano, Selene. Desenvolvimento Local, Responsabilidade Socioambiental e Royalties: a Petrobras em Macaé. 2010. Oficina Impactos Sociais, Ambientais e Urbanos das Atividades Petrolíferas: o caso de Macaé. Disponível em http://www.observatoriodopresal.com.br/?p=2386
Ibase. Introdução ao Incid – Indicadores da Cidadania. 2012. Disponível em http://incid.org.br/site/wp-content/uploads/2012/05/incidrelatorio1.pdf.
Lopes, José Sérgio(Coord.) A Ambientalização dos Conflitos Sociais. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Núcleo de Antropologia da Política/UFRJ, 2004, “Introdução”, p.16-38.
Madeira Filho, Wilson. Operários dos Royalties. Oficina Impactos Sociais, Ambientais e Urbanos das Atividades Petrolíferas: o caso de Macaé. Disponível em http://www.observatoriodopresal.com.br/?p=2386
Mineiro, Adhemar. O Estado Brasileiro e a Política da Vale. 2011. Disponível em http://www.observatoriodopresal.com.br/?p=415
Modesto, Nilo Sergio D´Ávila – A (re)produção espacial em marcha na consolidação dos Grupos de Poder Hegemônico em São Gonçalo – RJ. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Geografia, Universidade Federal Fluminense, 2008.
Moysés, Yana dos Santos. A instalação do COMPERJ e a des-re-territorialização da comunidade de Itambi (Itaboraí, Rio de Janeiro): desenvolvimentos e sustentabilidades.
Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Geografia, Pontifícia Universidade Católica (PUC), Rio de Janeiro. 2010.
Raulino, Sebastião Fernando. Construções Sociais da Vizinhança: Temor e Consentimento nas Representações dos Efeitos de Proximidade entre Grandes Empreendimentos Industriais e Populações Residentes. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Planejamento Urbano de Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ).
Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro). Decisão Rio 2010-2012. Rio de Janeiro, 2010.

Manguezais Ameaçados


Pescadores denunciam casas que ocupam mangue de Atafona, RJ

Cerca de 100 famílias dependem do ecossistema.
Mangue serve de berçário para animais.

Alguns manguezais em Atafona, no litoral de São João da Barra, no Norte Fluminense, foram invadidos por construções particulares. A denúncia é de pescadores e catadores de caranguejos, que dependem do mangue para trabalhar, conforme mostrou o Bom Dia Rio.
 Considerados a maior riqueza do litoral do Brasil, os mangues servem de berçário para diversas espécies e muitas famílias tiram deles o seu sustento. Só em Atafona, cerca de cem famílias dependem do manguezal. O descaso preocupa os habitantes da região.
“Cerca de 25 anos atrás eu pescava aqui, sustentava nossa família com essa pesca aqui. Hoje, você morre de fome, porque não tem o que pescar mais, porque tomaram conta dos manguezais. Se continuar assim, dois anos não tem mais manguezal não”, disse o presidente da Colônia de Pescadores de São João da Barra, Willian Pereira.
 Com ele, a equipe da InterTV visitou pontos que deveriam ser de mangue protegido, mas foram ocupados propriedades particulares, locais fechados com cercas e muros.
Problema começou há 15 anos
Segundos os pescadores, a invasão nos mangues começou há pelo menos 15 anos. Um terreno onde antes era lama, atualmente é só areia, o que impede o crescimento da vegetação e a sobrevivência dos animais. A areia foi levada pela maré cheia, que também carregou muito lixo para a área.
 O pescador Fábio Rosa já participou de mutirões para a limpeza de manguezais e já encontrou diversos tipos de objetos.  “Pneu, garrafa, tubo de televisão, jogam tudo no rio, vai acabando tudo. Vai piorando o manguezal”, disse Rosa.
 A preocupação agora é com o que ainda está preservado. “Eu estou preocupado porque eles tão querendo comprar isso aqui, e daqui a dois anos, eu tenho medo de a gente perder isso. Então, nós estamos brigando com a Secretaria de Meio Ambiente, com o Inea e com o Ibama, para a agente começar a fazer a nossa reserva”, disse Pereira.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Energia e Crise

Ventos de crise no cenário energético.


O panorama energético internacional reflete os efeitos da crise da dívida que afeta a Eurozona, com prognósticos que apontam para uma débil recuperação da demanda mundial de petróleo

Os estudos mais recentes da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) ratificam o entorno adverso para as economias dependentes das vendas do ouro negro.
Com efeito, as previsões apontam para um aumento de 800 mil barris diários no consumo de óleo cru 2013, uns 100 mil a menos em comparação com o crescimento estimado para o atual exercício.
Dessa forma, a Opep fixou a demanda em torno de 89,5 milhões de barris por dia, para um aumento de apenas 0,92 por cento.
Esse comportamento, indicou a entidade, responde - entre outros fatores - à crise da dívida soberana da Eurozona e à debilidade do sistema bancário europeu.
A isso se soma um menor ritmo de recuperação para a economia estadunidense e sinais de desaceleração nos mercados emergentes.
Os dados manejados pela Opep contemplam um crescimento médio da economia mundial de 3,2 por cento em 2013, inferior em um décimo às previsões para o atual exercício.
Nessa própria direção, a Agência Internacional de Energia (AIE) conta com prognósticos mais otimistas, ao considerar que a demanda mundial de petróleo chegará em 2013 a 90,9 milhões de barris diários, para um incremento próximo a um milhão de unidades com relação ao ano em curso.
Para o organismo, esse avanço é superior aos 700 mil barris de aumento correspondentes a 2011 e os 800 mil do exercício de 2012 e inclusive qualificou essa tendência de aceleração.
A AIE indicou que os países asiáticos necessitarão de 21,5 milhões de barris diários de petróleo, o que equivale a um crescimento de 2,9 por cento com respeito ao ano em curso.
Como elemento a destacar, as demandas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) chegarão a 45,1 milhões de barris por dia.
Enquanto isso, os países fora desse bloco demandarão um volume próximo aos 45,7 milhões de unidades.
Contudo, as estimativas da Opep e da AIE estão sujeitas à evolução a curto prazo da economia mundial, onde se ergue como um pesado obstáculo a dívida soberana da Eurozona.
Os especialistas consideram que o Produto Interno Bruto (PIB) do bloco de 17 países vinculados ao euro se contrairá este ano em 0,4 por cento, com aumento mínimo de 0,1 por cento no próximo exercício.
Em matéria de mercado de trabalho, a Eurozona ostenta o triste recorde de desemprego com 11,1 por cento da população ativa afetada.
O efeito contágio da crise já se estende a outras regiões, pois os Estados Unidos mostram um ritmo lento de crescimento econômico, além de um índice de desocupação de 8,2 por cento.
Para os produtores de petróleo o tema é preocupante, pois a economia norte-americana é a maior consumidora de óleo cru e derivados em nível mundial.
Sem dúvida, um pobre comportamento dos indicadores representa menor pressão sobre os níveis de demanda e por conseguinte, cresce o risco de um excesso de oferta nos mercados.
A tendência é ainda mais preocupante com a chegada do verão no hemisfério norte, pois nos Estados Unidos é precisamente a temporada de maior consumo de gasolina.
Também há uma mudança com relação à China, segundo consumidor de petróleo do planeta, que encerrou o segundo trimestre de 2012 com uma expansão do PIB de 7,6 por cento, o pior resultado em três anos.
Com essas condições, a estabilidade do cenário energético internacional passa por uma recuperação da economia, capaz de deixar para trás os diversos fatores que se combinam na atualidade para frear o otimismo no entorno petrolífero.

Por Mário Esquivel
Chefe da redação de Economia da Prensa Latina.
Publicado também em vermelho.org.br

Desenvolvimento Sustentável

A energia limpa que vem do mar


O tom esverdeado das águas do mar de Olinda e Recife esconde uma riqueza ainda maior que as fileiras ondulantes dos canaviais que sustentam a economia do Nordeste desde a colonização portuguesa
Até o fim do próximo ano estará em operação, segundo anúncio empresarial, a primeira usina de produção de biodiesel e etanol, no litoral pernambucano, à base de microalgas, com aproveitamento que supera 20 vezes o do álcool extraído da cana-de-açúcar.
O uso contínuo do petróleo está prestes a esgotar suas reservas e provoca a acumulação de dióxido de cabono prejudicial ao meio ambiente, daí os esforços em toda parte para a geração de combustíveis e outras fontes de energia mediante exploração da força dos ventos, de vegetais e até de excrementos. Em vez de sujar os oceanos com os vazamentos dos poços ou dos porões de petroleiros e de se envolver em conflitos sangrentos pelo domínio das grandes reservas, como o Oriente Médio, os homens estarão voltados para atividades criativas e menos dispendiosas.
O biodiesel pode ser fabricado a partir de microalgas, substâncias microscópicas que se encontram no mar e, por se reproduzirem em elevados potenciais, submetem-se a utilização em reservatórios dotados de tecnologia criada por engenheiros austríacos e já cedida para industrialização no Brasil, sendo escolhida uma área próxima às suas mais promissoras reservas. Os especialistas são unânimes em afirmar que esse é o modo que melhor atende à demanda de combustíveis para os meios de transporte. Não são aquelas algas de aparência suja que costumam aparecer no mês de março e se estendem pelas praias para enfeiá-las, mas microrganismos dos quais só notamos a existência pela coloração esverdeada que dão ao mar.
Como a usina usará maquinário leve, movido a energia elétrica, e será abastecida por criatório de microalgas de pequena extensão e interligado diretamente, não será preciso, como na produção da cana ou da soja, empregar a forma extenuante do trabalho humano braçal. Cada unidade produtiva corresponderá a 20 usinas de álcool e o preço do combustível poderá ser muito mais barato.
Essa é uma opção bem mais sustentável, também economicamente superior à transformação energética da soja ou do milho, que exigem plantações sujeitas à periodicidade das safras e às exigências da colheita, para não falar do desvio de fontes que servem melhor à alimentação humana.
Com o litoral brasileiro imenso, desde o Amapá ao Rio Grande do Sul, não necessitaremos recorrer, como Cingapura, à técnica que usa os excrementos como fonte de energia. Os cientistas da Universidade de Nanyang inventaram vasos sanitários parecidos com os dos aviões, que eliminam fezes e urina a vácuo, lançando-as em reservatórios nos quais são conduzidos para a transformação em eletricidade e em fertilizantes. O sistema recebeu a denominação de No-Mix Vacuum Toilet e já foi aprovado para exploração comercial. Uma parte dos dejetos é recolhida nos esgotos ou nas fossas e levada para os biorreatores e a outra vai servir à fabricação de fertilizantes.
Uma vantagem suplementar desse sistema é a economia de água, pois o seu funcionamento requer 90% a menos de dispêndio do líquido que constitui hoje uma outra preocupação de escassez. As descargas nos sanitários usarão apenas 10% da água que normalmente é consumida e irão acionar o processo de transformação dos excrementos em energia limpa.
De todo modo, será cada vez mais importante evitar o desperdício de água. Não faz sentido, por exemplo, ver as barracas de praia deixando escorrer ininterruptamente água de chuveiros improvisados para atrair clientes.
São sinais, portanto, sejam as microalgas, sejam os vasos transformadores, de que a humanidade terá a oportunidade de substituir a energia poluente do carvão e do petróleo por fontes alternativas e limpas capazes de manter os índices de desenvolvimento econômico dos povos. Assim a humanidade vai em frente, menos destrutiva, mais criativa e inteligente.

Fonte: Correio Braziliense.

Greve e Educação

"A importância estratégica da greve e da educação...


Ao invés de voltar-se contra movimento nas universidades, governo deveria perceber que ele pode ser indispensável para ir além dos avanços sociais alcançados nos últimos anos.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nos últimos dias que a elevação dos gastos com a educação ao patamar de 10% do Orçamento nacional poderia quebrar o País. Sua colocação vem em má hora. Ele deveria dizer, ao contrário, que a perpetuação dos gastos em educação no nível atual quebrará a Nação.
Neste exato momento, o Brasil assiste a praticamente todas as universidades federais em greve. Uma greve que não pede apenas melhores salários para o quadro de professores e funcionários, mas investimentos mais rápidos em infraestrutura. Com a expansão do ensino universitário federal, as demandas de recurso serão cada vez mais crescentes e necessárias. Isto se quisermos ficar apenas no âmbito das universidades públicas.
Por trás de declarações como as do ministro, esconde-se a incompreensão do que é o próximo desafio do desenvolvimento nacional. Se o Brasil quiser oferecer educação pública e de qualidade para todos precisará investir mais do que até agora foi feito. Precisamos resolver, ao mesmo tempo, problemas do século XIX (como o analfabetismo e o subletrismo) e problemas do século XXI (como subvenção para laboratórios universitários de pesquisa e internacionalização de sua produção acadêmica). Por isto, nada adianta querer comparar o nível de gasto do Brasil com o de países com sistema educacional consolidado como Alemanha, França e outros. Os desafios brasileiros são mais complexos e onerosos.
O investimento em educação é, além de socialmente importante, economicamente decisivo. O governo ainda não compreendeu que o gasto das famílias com educação privada é um dos maiores freios para o desenvolvimento econômico. Vivemos em um momento no qual fica cada vez mais clara a necessidade de repactuação salarial brasileira. A maioria brutal dos empregos gerados nesses últimos anos oferece até um salário mínimo e meio. A proliferação de greves neste ano apenas indica a consciência de que tais salários não podem garantir uma vida digna com possibilidade de ascensão social.
Há duas maneiras de aumentar a capacidade de compra dos salários: aumento direto de renda ou eliminação de custos. Nesse último quesito, os custos familiares com educação privada são decisivos. A criação de um verdadeiro sistema público de educação seria o maior aumento direto de salário que teríamos.
O governo teima, no entanto, em não perceber que o modelo de desenvolvimento conhecido como “lulismo” está se esgotando. Lula notou que havia margem de distribuição de renda no Brasil sem a necessidade de acirrar, de maneira profunda, conflitos de classe. De fato, sua intuição demonstrou-se correta. Mas o sucesso momentâneo tende a cegar o governo para os limites do modelo.
Com a ascensão social da nova classe média, as exigências das famílias aumentaram. Elas querem agora fornecer aos filhos condições para continuar o processo de ascensão, o que atualmente passa por gastos em escola privada. Esses gastos corroem os salários, além de pagar serviços de baixa qualidade. A escola brasileira, além de cara comparada a qualquer padrão mundial, é ruim.
É fato que o aumento exponencial dos gastos em educação coloca em questão o problema do financiamento do Estado. Ele poderia ser resolvido se o governo tivesse condição política para impor uma reforma tributária capaz de taxar grandes fortunas, transações financeiras, heranças e o consumo conspícuo para financiar a educação. Lembremos que, com o fim da CPMF, o sistema de saúde brasileiro viu postergado para sempre seus sonhos de melhora.
Tais condições exigiriam um tipo de política que está fora do espectro do lulismo, com suas alianças políticas imobilizadoras e sua tendência em não acirrar conflitos de classe. O Brasil paulatinamente compreende a necessidade de passar a outra etapa e, infelizmente, poucos são os atores políticos dispostos a isto."

Por Vladimir Safatle (Carta Capital)

domingo, 17 de junho de 2012

CARTA DE MARICÁ;DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL A RIO + 20


CARTA DE MARICÁ NO DIA DA AÇÃO GLOBAL DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
CARTA DE MARICÁ
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe, livre e comum.
Os movimentos sociais e instituições, sócio-ambientais, populares e sindicais, reunidos na Comunidade de Zacarias no município de Marica-RJ, nos dias 26 e 27 de janeiro de 2008 para marcar o dia de ação global do Fórum Social Mundial com o lema UM OUTRO MUNDO SUSTENTÁVEL É POSSÍVEL
DECLARAM QUE ESTA AÇÃO
– constatou que essa área de conflito sócio ambiental é de dimensões internacionais, onde o grupo Madri Lisboa/IDB do Brasil dedicado à especulação imobiliária, ameaça destruir uma área de preservação ambiental, cujos recursos naturais são patrimônio da humanidade, para nela implantar um mega resort associado a outros empreendimentos, reflete nossa clara oposição ao modelo neoliberal preconizado pelo Fórum Econômico Mundial, a quem atribuímos a principal responsabilidade pelo desequilíbrio global que ameaça todas as formas de vida;
– Cumpriu a importante função de exemplificar como o avanço do processo de degradação da natureza está associado à degradação da vida humana e de tudo o que lhe é mais importante, resultando no agravamento dos conflitos que começam assumir características de guerra social;
Comprometendo-se a:
NO PLANO LOCAL E REGIONAL
– Promover a luta pela preservação da restinga de Maricá como patrimônio inalienável da humanidade;
– Promover uma ampla campanha pela criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável da Restinga e do Complexo Lagunar de Maricá que tem como objetivo básico preservar a natureza e, ao mesmo tempo, assegurar as condições e os meios necessários para a reprodução e a melhoria dos modos e da qualidade de vida e exploração dos recursos naturais das populações tradicionais, bem como valorizar, conservar e aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente, desenvolvido por estas populações, em conformidade com o texto da lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC nº 9.985, de 18 de julho de 2000 e decreto nº 4.340, de 22 de agosto de 2002;
– Desenvolver ampla campanha de investigação sobre a legítima propriedade na área de Jaconé onde há suspeita da construção de um mega empreendimento imobiliário pela BRASCAN, tendo em vista, a vocação da área para a criação de um entreposto pesqueiro de interesse nacional. Essa investigação deve ser estendida à Área de Proteção Ambiental de Marica;
– Promover ampla investigação nos processos de licenciamento nas áreas lagunares de Marica;
– Promover campanha de denúncia contra os danos a serem causados pela entrada em operação e produção da Bacia de Santos, que levará o aeroporto de Maricá a servir de base operacional de uso contínuo, com sobrevôos da APA, alertando ainda quanto ao risco da construção de um cais metálico (píer) na orla marítima, aumentando ainda mais a poluição ambiental nessa região;
– Promover a participação crítica e ativa da sociedade no processo de elaboração das agendas 21 dos municípios ameaçados pelo projeto de construção do COMPERJ (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro), repudiando esse tipo de empreendimento que, além dos danos irreversíveis de agravamento da escassez de água e à biodiversidade na região, ferem normas internacionais de proteção e gerenciamento de áreas costeiras;
– Promover a denúncia de que os Planos de Compensação da Atividade Pesqueira, desenvolvidos pela Petrobrás, na verdade têm caráter de reconhecimento de crime ambiental premeditado, exigindo-se maiores cobranças em relação a suas responsabilidades junto às comunidades nas áreas em que ocorrem esses impactos;
– Promover a realização de atos de repúdio aos Governos que promovem a manipulação de leis e normas que regem a proteção de áreas de preservação ambiental em beneficio de grupos econômicos depredadores. Nesse sentido, exigimos que a ocupação de cargos de direção e deliberação dos órgãos de licenciamento ambiental ocorra apenas por servidor público de carreira, como forma de evitar favorecimentos;
– Promover ampla campanha em solidariedade aos trabalhadores negros e negras do Rio de Janeiro, contra as atitudes de cunho fascistas e racistas do governador do estado, Sérgio Cabral Filho;
NO PLANO NACIONAL E INTERNACIONAL
– Promover a conscientização da sociedade de que os problemas ambientais representam questões sociais estratégicas, com impactos diretos na economia que geram reflexos danosos na saúde pública e soberania dos povos, exigindo permanente estado de mobilização na defesa dos interesses da sociedade, em especial das populações mais pobres;
– Desenvolver ampla campanha de repúdio às Fundações Estatais de Direito Privado, ainda que sob gestão do Estado, por compreendermos que todo e qualquer processo que leve à privatização de serviços públicos devem ser condenados, cuja prática já foi adotada pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho;
– Desenvolver ampla campanha contra as terceirizações nas áreas meio e fim dos serviços públicos prestados à população, denunciando os riscos da crescente precarização e fragmentação das relações de trabalho e consumo;
– Promover a mobilização de todas as comunidades em defesa da revitalização do Rio São Francisco e contra o projeto criminoso de transposição que tem por objetivo favorecer o agronegócio com recursos públicos, em detrimento da agricultura familiar e das populações carentes do nordeste. Neste sentido, faz-se necessária a integração das diversas campanhas ambientais;
– Promover a mobilização da sociedade no sentido de revertermos o quadro atual do uso dos recursos naturais, predominantemente econômico, como no caso do consumo da água em que 70% de seu consumo concentra-se no agronegócio e 20% na indústria, restando apenas 10% para todos os demais usos, inclusive o consumo humano;
– Promover a compreensão da água, biodiversidade, energia e lixo como os principais desafios do século XXI, exigindo-se ampla mobilização em defesa de políticas públicas integradas sob controle da sociedade, com vistas a evitarmos os graves colapsos que se anunciam em termos de escassez, fome, proliferação de doenças e miséria que justificam crise generalizada, perda de direitos, ações militares e até futuras guerras;
– Promover a defesa de mecanismos participativos e sob controle social para utilização dos recursos do mar como mecanismo de defesa das águas costeiras e a preservação de suas espécies, criando-se mecanismos de proteção e promoção da pesca artesanal como atividade predominante nessas áreas;
– Reivindicar um caráter civil à presença brasileira no Haiti, para que o país não seja um campo de treinamento de forças repressivas. Propor missões de solidariedade técnico-científicas, no sentido de recuperar os graves danos ambientais e sociais causados pelo descaso internacional. Alertar ao governo brasileiro da oportunidade histórica que tem à frente: prestar auxílio ao país mais fragilizado de nosso continente e, por conseqüência, fortalecer as bases democráticas na América Latina;
– Promover a defesa da água e da biodiversidade como direitos humanos fundamentais, lançando uma ampla campanha pela emenda constitucional que garanta: 1) O fornecimento gratuito de 45 litros de água dia de água tratada por habitante; 2) predomínio do interesse social no processo de desenvolvimento, tornando de caráter deliberativo a participação pública em projetos de licenciamento ambiental;
– Denunciar, nacional e internacionalmente, a devastação cometida por grupos Espanhóis no Brasil, em especial o Grupo Madrid Lisboa e seus associados como o grupo IDB do Brasil, pelas ameaças à área de proteção ambiental de Maricá, resgatando o histórico de crimes ambientais que relacionem suas práticas ao crime organizado internacional;
- Denunciar amplamente todas as grandes corporações que promovem danos à sociedade e à natureza, comunicando a todos os agentes econômicos e financeiros – nacionais e internacionais – seus atos lesivos à governança corporativa;
– Propor junto a INTERPOL a criação de uma divisão de repressão a crimes contra a natureza e o patrimônio cultural e histórico;
– Condenar todo e qualquer pagamento da dívida externa dos países pobres, tendo em vista considerarmos nada dever a quem nada nos deu;
– Trabalhar a proposta de criação da Organização Latino Americana de Proteção à Água e à Biodiversidade, na perspectiva de realização do Fórum Social Mundial da Água, integrando a programação do Fórum Social Mundial em janeiro de 2009, em Belém do Pará, convocando – desde já – todos nossos parceiros a se mobilizarem nesse sentido. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Rio+20 ou Rio-20

Rio+20 começou com falta de consenso

Há baixa expectativa de que documento final estipule metas ambiciosas para o desenvolvimento sustentável
A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, começa nesta quarta-feira (13), no Rio de Janeiro, com incertezas, falta de consenso e sem grandes expectativas de que o documento final estipule metas ambiciosas. Até ontem, havia confirmação da participação de representantes de 186 dos 193 países-membros da ONU - a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, representará o presidente Barack Obama.
Os principais impasses continuam em torno do fortalecimento do programa das Nações Unidas para o Ambiente (Pnuma) e sobre os temas dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) - pelos quais os países avançariam como uma segunda etapa dos Objetivos do Milênio, um conjunto de oito metas estabelecidas pela ONU em 2000 e que devem ser atingidas por todos os países até 2015. Mas até a última reunião preparatória, no início do mês, em Nova York, não havia acordo nem mesmo sobre quantos deveriam ser os temas desses objetivos sustentáveis.
A ONU já dá como certo que as negociações não se encerram ao longo dos três dias de reunião preparatória do documento final, a partir de hoje. Por enquanto há acordo em relação a menos de um quarto dos parágrafos do documento. Como a decisão é por consenso entre os 186 países participantes, fica claro o tamanho do desafio. Já se inscreveram para fazer discursos durante a cúpula 76 presidentes, 6 vices, 44 primeiros-ministros e 7 vice-primeiros-ministros.
O Brasil defendeu ontem o fortalecimento de princípios acordados há 20 anos e que não haja retrocessos em pontos conquistados na Eco-92. A informação foi passada em uma entrevista sem muito entusiasmo concedida pelos ministros Antonio Patriota (Relações Exteriores) e Izabella Teixeira (Meio Ambiente) no Riocentro, sede do evento.
Patriota disse que o País chega à última etapa de negociações defendendo a manutenção de pontos estabelecidos na Eco-92, como ter o ser humano como o centro das atenções e o princípio das "responsabilidades comuns, porém diferenciadas".
Em linhas gerais, esse princípio prevê que todos os países têm compromisso com as mudanças, mas os ricos têm mais, porque historicamente contribuíram mais com a degradação do planeta.
"A crise econômica há 20 anos afetava sobretudo os países em desenvolvimento. Hoje, o que antes era considerado periferia está trazendo respostas. A periferia de certa maneira virou o centro", disse Patriota.
Polarização
Sobre a divergência entre países ricos e pobres, um representante da ONU disse que hoje não dá mais para falar em polarização Norte-Sul. "Em que categoria Brasil, a sexta economia do mundo, China e Índia se colocam, como pobres? Claro que ainda existe muita pobreza. E há um medo dos países em desenvolvimento de serem forçados a tomar atitudes imediatas que possam prejudicar o seu crescimento. É mais complicado que Norte x Sul. O mundo está muito diferente."
Mais cedo, Izabella havia comparado a falta de acordo nas negociações com o que ocorreu no ano passado durante a conferência do clima (COP-17), em Durban, África do Sul. "Todos diziam que Durban não ia dar em nada, mas conseguimos reverter a situação", lembrou a ministra, sobre o acordo fechado em dezembro por representantes de 194 países de renovar o Protocolo de Kyoto para pelo menos até 2017.
Fonte: Agência Estado

Agronegócio: Veneno na sua mesa.

AGRONEGÓCIO, AGROTÓXICO E “AGROCÂNCER”

O Brasil é o maior consumidor mundial de venenos agrícolas. Consumimos sozinhos 20%  de todos os venenos do mundo. Com base em estudos de universidades brasileiras, o jornal Brasil de Fato, durante a Cúpula dos Povos, vai denunciar aquilo que muitos já desconfiavam e o Instituto Nacional do Câncer revela que no país devem ocorrer ao redor de um milhão de novos casos de câncer por ano. A maior parte deles originário de alimentos com agrotóxicos.
Inclusive o câncer de mama, que agora aparece entre as mulheres de todas as idades. A grande imprensa se cala porque os fabricantes desses venenos são multinacionais poderosas que já têm um histórico no ramo durante a 1ª e 2ª guerra mundial produziam armas químicas e agora são as responsáveis pelos agrotóxicos, são elas: Sygenta, Bayer, Basf, Dow, Monsanto, Dupont, Makhteshim (de Israel) Nufarm (Austrália) e Sumimoto e FMC (Japão).
O agronegócio é o principal parceiro dessas multinacionais e o responsável maior pelo uso dos agrotóxicos. O pior é que, além de contaminar os alimentos que, quando consumidos, adoecem os seres humanos, esses venenos ainda contaminam a mãe terra, os lençóis freáticos, os rios e as lagoas.
A Campanha Nacional contra o Uso de Agrotóxicos e pela Vida que reúne mais de 50 entidades nacionais da sociedade brasileira, as quais se soma o Sindipetro-RJ, que em sua missão permanente visa a conscientizar a população, os verdadeiros agricultores, as entidades e os parlamentares para que se ponha um fim ao uso de venenos em nosso país. E que, sobretudo, se penalizem as empresas transnacionais fabricantes. Essas empresas deveriam, inclusive, serem obrigadas a pagar ao SUS o custo do tratamento do câncer e de outras enfermidades comprovadamente originárias do uso de veneno em nossa alimentação.


Documentos alertam sobre risco de câncer pelo uso de agrotóxicos
Abrasco e Instituto Nacional do Câncer associam a incidência da doença à exposição aos agrotóxicos

Dois documentos divulgados no final de abril alertam para o risco de surgimento de câncer pelo excessivo uso dos agrotóxicos no Brasil. No dia 29, a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO) lançou a primeira parte do dossiê “Um alerta sobre os impactos dos Agrotóxicos na Saúde”, que busca, através de evidências científicas, chamar a atenção às doenças causadas pela exposição a esses produtos químicos. Conforme o dossiê da Abrasco, além dos efeitos imediatos, como intoxicação e morte, os efeitos crônicos podem ocorrer meses, anos ou décadas após a exposição aos agrotóxicos, manifestando-se em várias doenças como cânceres, má formação congênita, distúrbios endócrinos, neurológicos e mentais.

Já o Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgou, no dia 30, um documento em que também relaciona a ocorrência de câncer ao uso dos agrotóxicos. De acordo com o estudo do Inca, o Brasil registra em torno de 500 mil novos casos de câncer por ano, muitos deles relacionados diretamente ao aumento do uso de agrotóxicos, seja na sua aplicação e exposição, mas sobretudo a acúmulo dentro dos alimentos.

O estudo do Inca destaca o surgimento de câncer nos trabalhadores que aplicam e usam agrotóxico nas lavouras. “Associações positivas entre cânceres hematológicos e exposições ocupacionais a substâncias químicas foram observadas em estudos de caso - controle no sul do Estado de Minas Gerais para trabalhadores expostos a agrotóxicos ou a preservantes de madeira e para trabalhadores expostos a solventes orgânicos, lubrificantes, combustíveis e tintas”, afirma o documento.

Segundo Luiz Augusto Facchini, presidente da ABRASCO, a população exposta aos agrotóxicos vai desde os trabalhadores do campo e de fábricas que produzem os venenos até a população do entorno das áreas agrícolas e consumidores de alimentos contaminados.

O Brasil foi classificado, nos últimos três anos, como o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. De acordo com dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Observatório da Industria dos Agrotóxicos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), divulgados durante o 2º Seminário sobre Mercado de Agrotóxicos e Regulação, realizado em Brasília (DF) em abril, enquanto, nos últimos dez anos, o mercado mundial de agrotóxicos cresceu 93%, o mercado brasileiro cresceu 190%.

Conforme destaca o dossiê da Abrasco, o resultado da crescente dependência dos agrotóxicos e fertilizantes químicos é que um terço dos alimentos consumidos diariamente pelos brasileiros está contaminado, segundo análise de amostras coletadas em todas as 26 Unidades Federadas do Brasil, realizadas pelo Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) em 2011.

A segunda parte do dossiê da Abrasco, que terá como tema "Agrotóxicos, Saúde e Sustentabilidade", será lançada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +20) - Cúpula dos Povos, durante a Rio +20 por Justiça Social e Ambiental, de 20 a 22 de junho, no Rio de Janeiro (RJ). Já a terceira parte do documento será lançada apenas em novembro no X Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em Porto Alegre (RS), e terá como tema “Agrotóxicos, Conhecimento e Cidadania”.

Veja relação do Inca que mostra cânceres que têm como causa os agrotóxicos:

Câncer na cavidade oral, faringe e laringe

Causas: agrotóxicos, amianto, fuligem de carvão, poeria de madeira, couro e cimento.
 
Câncer de mama

Causas: agrotóxicos, benzeno, campos e eletromagnéticos, hormônios e dioxinas.


Câncer no estomago e esófago

Causas: Poeiras da construção civil, de carvão e minerais. Vapores de combustíveis. Herbicidas e ácido sulfúrico.


Leucemias e mielodisplasias

Causas: acrinotrila, aminas aromáticas, agrotóxicos, benzeno, radiação, solventes, etc.

Eike Batista contra o povo

Saiba porque os agricultores do Açu estão sendo expulsos

R$ 150 milhões anuais de aluguel para 4 empresas no Açu
O anúncio do aluguel feito na última semana pela LLX de uma área que será ocupada pela conhecida empresa Subsea7, a quarta empresa do setor de apoio às atividades offshre que decidiu se instalar junto ao terminal on-shore TX-2, no Complexo Logístico-industrial do Porto do Açu, acendeu no blog, uma curiosidade sobre o valor destas áreas alugadas, numa área até agora de 730 mil m², de um total de área disponível para este fim de 2 milhões de m².
As outras empresas que decidiram se instalar são a Intermmor em uma área 52,3 mil m², a NKT Flexibles, numa área de 121 mil m² e Technip, em área de 289 mil m². Somando as quatro áreas se tem aproximadamente 730 mil m² alugados ao valor de R$ 6/m²/mês. No ano o valor é de 72 por m².
Assim, com uma área disponível de 2 milhões para esta finalidade (ver mapa ao lado) é possível estimar uma receita anual de R$ 144 milhões. Como todos os contratos estão sendo feitos num prazo de 10 anos, é possível estimar um valor total de cerca de R$ 1,5 bi.
Se levarmos em conta o valor a ser pago também pelas siderúrgicas para uso do terreno é possível supor em 10 anos receita superior a R$ 5 bilhões.
Assim, vê-se que a incorporação imobiliária, fora o projeto da Cidade X, se transformou, num dos mais importantes itens de faturamento, superior até a algumas atividades industriais e de logística que arrastam estas demais atividades projetadas para o Complexo do Açu.
Desta forma, se compreende como o uso do solo e a apropriação do território é um item importante nas estratégias de acumulação de capital do grupo EBX e o porquê das pressões e até truculência nos processos de desapropriação já vistos naquela região e amplamente divulgadas.
De outro lado, não se pode esquecer que o valor médio de terra pago como desapropriação aos pequenos produtores rurais foi (ou será ainda, porque a maioria deles ainda não recebeu, é de R$ 90 mil por alqueire, o que dá a quantia de R$ 1,90/m2 - considerando o alqueire com 48 mil metros quadrados).
Assim, vê-se a discrepância entre a compra por R$ 1,90 por m² e o valor do aluguel mensal de R$ 6 por m², mesmo considerando as chamadas benfeitorias que foram negociadas para a área do DISJB.
Esta é mais uma reflexão que o blog faz abertamente sobre o processo de implantação do Complexo do Açu e para a qual solicita a opinião de todos que acompanham o assunto, assim como a Codin e o próprio grupo EBX.

Fonte: Blog do professor Roberto Moraes, do IFF Campos dos Goytacazes

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Manifestação no Dia Mundial do Meio Ambiente no Rio de Janeiro


Redes e movimentos sociais que constroem a Cúpula dos Povos lembraram no dia 05 de junho o Dia Mundial do Meio Ambiente.



 


Um ato em frente ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea), no Rio de Janeiro, reuniu cerca de 200 pessoas. Os manifestantes levaram um boneco de Carlos Minc com nomes de "empreendimentos que prejudicam a natureza e as populações". As marcas foram coladas no colete, tradicional vestimenta do secretário do Ambiente. No final do protesto a alegoria, que exibia os símbolos de empresas como EBX e Chevron, foi enforcada.

Minc foi acusado de conceder licenças ambientais por pressões econômicas. Jacir do Nascimento, do bairro carioca Santa Cruz, denunciou os impactos na saúde dos moradores do entorno da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA). Ele disse ainda que mais de 8 mil pescadores deixaram de trabalhar na região desde a chegada da empresa.

Sobre o tema, Marcelo Freixo informou que o Psol entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra o governo estadual. O deputado denunciou que a administração de Sérgio Cabral (PMDB) chamou de diferimento o valor de 552 milhões de reais dado à CSA. Ele disse que essa foi uma "maneira clara de burlar a lei", já que o adiantamento foi concedido "para a compra de artigos fixos, como máquinas, que não poderão ser vendidos e não darão retorno ao Estado".

Nesse sentido, o deputado ressaltou que a prática é uma "isenção ilegal" que favorece um “progresso vazio que vitima principalmente os mais pobres”. Hertz Leal, do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio, concordou que o meio ambiente está sendo agredido pelo atual modelo de desenvolvimento que não visa o interesse público, gerando uma cidade voltada para o lucro.


Leal criticou a economia verde, que será defendida durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Já o padre Geraldo João Lima, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), lembrou que os impactos dessa política têm afetado as cidades, mas também o campo. Por isso, defendeu a agroecologia contra o agronegócio, que “não planta pensando na saúde dos povos”.

Manifestações como essa no Rio de Janeiro, cidade que recebe a Cúpula dos Povos, ocorreram em outras partes do Brasil. Países como Colômbia, Argentina, Honduras, República Dominicana, Espanha, Suíça, Suécia, País Basco, Bélgica e Estados Unidos também realizaram atividades contra a mercantilização da natureza e em defesa dos bens comuns, eixos do evento alternativo à Rio+20.

Fonte: Agência Pulsar
Fotos: Samuel Tosta

Moção de repúdio ao duto do COMPERJ em Maricá


O 14º Congresso Estadual da CUT (CECUT) realizado no Rio de Janeiro aprovou, por unanimidade dos delegados presentes, na plenária, uma moção de repúdio à construção e operação do duto de esgotamento do COMPERJ em Maricá, na praia de Itaipuaçu.

Não é de hoje que o Conselho Comunitário de Maricá – CCM- se posicionou contra essa obra que cria um grande impacto ambiental e social sobre a região e o meio ambiente, inclusive na área da APA, da Serra da Tiricica, UMA VERGONHA!