terça-feira, 20 de maio de 2014

COMUNICAÇÃO.

Comunicação

Vídeo mostra como a imagem da mulher brasileira é construída pela mídia

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Segunda, 19 Maio 2014
Acessos: 10
O vídeo alerta que o padrão veiculado, por exemplo na TV, não reflete a diversidade, pois as imagens são sempre de loiras altas, magras e heterossexuais, que em nada remetem à maioria dos brasileiros

O vídeo "Mulheres brasileiras: do ícone midiático à realidade” traz depoimentos de mulheres que defendem os diretos femininos e apontam que a maioria dos meios de comunicação e da mídia no Brasil desvaloriza a mulher e a trata como mercadoria. O vídeo critica o modelo de publicidade brasileiro, a falta de democratização da comunicação e promove um debate a respeito dos direitos das mulheres e do papel da mídia na formação da subjetividade das pessoas.
Os depoimentos de Rita Freire e Terezinha Vicente, membros da Rede Mulher Mídia, expõem como a mulher brasileira é tratada pela grande mídia e alertam que o padrão de mulher veiculado nas mídias não reflete a brasileira. Para Rita, a imagem veiculada nos meios de comunicação contribui para reproduzir um padrão de beleza incompatível com a realidade da população, trata a mulher como mercadoria e ainda contribui para a erotização das crianças.
O vídeo alerta que o padrão veiculado, por exemplo na TV, não reflete a diversidade, pois as imagens são sempre de loiras altas, magras e heterossexuais, que em nada remetem à maioria dos brasileiros. A publicidade que reproduz propagandas de cervejas, associando a figura da mulher à bebida, ao futebol e à sensualidade são criticadas no vídeo e é feita uma critica à legislação do país em relação à comunicação.
Para Jacira Melo, diretora do Instituto Patrícia Galvão, a legislação precisa mudar, pois o Brasil possui ainda leis antigas, com mais de 50 anos. Segundo ela, a legislação precisa democratizar a comunicação no país.
Os depoimentos da psicóloga Iris Miranda e da jornalista Melissa Miranda chamam a atenção para o movimento da Marcha das Vadias, que surgiu em várias partes do mundo, chegou no Brasil e ganhou força através de mobilizações nas redes sociais.
O vídeo é pequeno, mas promove uma reflexão sobre como os direitos das mulheres são desrespeitados e como a mídia pode interferir na subjetividade humana. O vídeo expõe também difícil tarefa de defender os direitos das mulheres em uma sociedade que está imersa em uma cultura machista e manipulada.
Para assistir ao vídeo acesse:

Ficha Técnica:
Diretora Laura Toledo Daudén, Andrea Menor e Alba Onrubia Gago García
Produção: Povos-Magazine Informação e Debate e Paz com Dignidade
Duração: 14 minutos
Ano: 2014

TRABALHO ESCRAVO.

Direitos Humanos

PEC do Trabalho Escravo deve ser votada dia 27

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Segunda, 19 Maio 2014
Acessos: 10
Após aprovação, PEC do Trabalho Escravo seguirá para promulgação 

A Proposta de Emenda à Constituição do Trabalho Escravo (PEC 57A/1999) deverá ser votada em caráter definitivo no plenário do Senado Federal no próximo dia 27. Com a aprovação de um calendário especial de tramitação, todos os prazos de discussão para a votação da proposta em primeiro e segundo turnos estão dispensados. Após a aprovação, a PEC seguirá para promulgação.
A PEC, apresentada no Senado em 1999, prevê a expropriação das terras onde for constatada a exploração de trabalho análogo à escravidão e o cultivo de substâncias psicotrópicas proibidas por lei. O texto original previa que os donos perderiam tais propriedades sem direito à indenização do Poder Público e que as terras seriam destinadas à reforma agrária, com preferência para o assentamento dos colonos que já estivessem trabalhando nelas.
No entanto, a Câmara aprovou em 2012 um substitutivo que previa, entre outras coisas, a mesma punição em propriedades urbanas, destinando os recursos provenientes da expropriação a programas de habitação popular, além da reforma agrária. Uma emenda de redação passou a remeter os efeitos da PEC a uma lei que irá esclarecer o que é considerado trabalho escravo e como a expropriação deverá ocorrer.
Na época, a bancada ruralista na Câmara considerou que o texto, como estava, poderia dar margem a precipitações e interpretações equivocadas sobre o que é considerado trabalho análogo ao de escravo. Dessa forma, optaram por aprovar o texto com uma emenda de redação remetendo a uma lei complementar.
“As propriedades rurais e urbanas de qualquer região do país onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou exploração de trabalho escravo na forma da lei serão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado, no que couber, o disposto no Artigo 5º”, diz o texto que será votado no Senado.
O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), no entanto, disse que tentará articular a derrubada da emenda nos próximos dias. Como a matéria é originária do Senado e já passou pela Câmara, os senadores agora podem apenas manter ou retirar o que foi mudado pelos deputados sem fazer novas inserções no texto. Randolfe disse que irá procurar os parlamentares sensíveis ao tema e tentar apoio para retirar a emenda que remete a PEC à regulamentação em lei complementar.
“Isso foi feito para essa PEC não ter efetividade, porque nós nunca vamos ter lei complementar sobre isso”, disse o senador a Agência Brasil. Para ele, a lei atual já é bastante clara sobre o que significa trabalho análogo à escravidão e não seria problema para o Ministério do Trabalho regulamentar questões que ainda possam estar pendentes.
“Não há ausência de clareza sobre isso. Trabalho escravo é se apropriar da mão de obra sem a remuneração devida e a atenção aos direitos trabalhistas. Agora, os latifundiários sabem que, no campo, a realidade não é essa e por isso não querem que a PEC tenha efeito prático”, disse.
Fonte: Agência Pública
Foto: Ministério Púbico do Trabalho / divulgação

quarta-feira, 14 de maio de 2014

UMA VISÃO CATASTRÓFICA DA MÍDIA BURGUESA.

A mensagem insidiosa do catastrofismo

Escrito por: Luciano Martins Costa
Fonte: Observatório da Imprensa
Na quarta-feira (14/5), a menos de um mês do início da Copa do Mundo, a imprensa oscila entre dois pontos contraditórios: num deles, parece apostar no recrudescimento de conflitos que poderiam colocar em risco o sucesso da festa internacional do futebol; no outro, precisa que a sociedade vista a camiseta da seleção nacional, para manter vivo o mito heroico do esporte e continuar faturando com a publicidade.
Exemplos desse movimento ambíguo podem ser vistos em fragmentos do noticiário econômico, na política e até mesmo no jornalismo cultural ou de entretenimento. Selecionamos, por exemplo, uma reportagem do Estado de S. Paulo, na qual se lê que a média dos salários nos doze meses até março subiu 8,2%, acima da inflação do período, que foi de 6%.
Trata-se de um paradoxo para a imprensa, mas de um resultado lógico para quem enxerga a política econômica com olhos curiosos, sem os antolhos do dogmatismo liberal. O desemprego segue abaixo da linha histórica, os salários nominais ganham da inflação, e isso compõe basicamente o atual modelo brasileiro, explicando por que a maioria do eleitorado teme uma mudança radical desse cenário.
Também no Estado, o leitor encontra nova atualização do indicador IED, de Investimento Estrangeiro Direto, onde se lê que, nos primeiros quatro meses do ano, foram realizadas 235 grandes fusões e aquisições no Brasil, média 21% superior à do mesmo período no ano passado. Não se trata de especulação, mas de dinheiro investido diretamente em produção. Por que será que o apetite de investidores estrangeiros por negócios no Brasil segue alto?
Na Folha de S. Paulo, destacamos uma entrevista com o economista francês Thomas Pikerty, autor do livro O Capital no século 21, a ser lançado até o final do ano em português. Sua obra, na versão em inglês, há quase dois meses entre os cem livros mais vendidos da Amazon, está em segundo lugar entre os best-sellers, atrás apenas de um romance para adolescentes. Suas ideias estão mudando a maneira de pensar a economia e a sociedade, e o núcleo de seus estudos coincide em grande parte com os preceitos da política econômica adotada pelo Brasil na última década.
O rock errou
Agora, imagine o leitor ou leitora dotados de senso crítico, como fica a cabeça do cidadão que toma as manchetes da imprensa como retrato fiel da situação do Brasil.
Não erra quem afirmar que o público típico da mídia tradicional acredita que o país está afundando, embora a realidade mostre que a circunstância atual é melhor para a maioria, aqueles que vivem do seu trabalho, embora ainda restem muitos problemas estruturais a serem resolvidos.
Como disse a empresária Luiza Helena Trajano, dona do Magazine Luiza, há cerca de dois meses, durante debate num programa de televisão, não se trata apenas de olhar o copo “meio vazio” ou “meio cheio”: trata-se apenas de enxergar ou não enxergar aquilo que está diante do nariz.
Com todas as turbulências a que estão submetidas as economias nacionais no contexto global dos negócios, a situação do Brasil não pode ser descrita como catastrófica, como fazem supor as manchetes. A realidade está bem escondida em reportagens que nunca vão para a primeira página, como as que citamos há pouco.
E por que razão os jornais demonstram diariamente essa opção preferencial pelo catastrofismo, se, afinal, um estado de espírito derrotista prejudica até mesmo os negócios das empresas de mídia? Porque os editores sabem que os fundamentos da economia são apenas parcialmente afetados pelo noticiário: os grandes investidores não costumam tomar decisões por notícia de jornal.
O interesse do noticiário negativo é o de influenciar o cidadão comum, o eleitor, e fazer com que ele manifeste nas urnas um desejo de mudança que foi insuflado diariamente pela imprensa. Simples assim.
Nesse jogo, entra até mesmo a produção cultural e de entretenimento. Veja-se, por exemplo, a extensa reportagem do Globo sobre a volta à cena da banda de rock Titãs, com chamada na primeira página sob o título “Um retrato pesado do Brasil”. Na entrevista do lançamento de um novo disco, o guitarrista e compositor Tony Bellotto repete o refrão e afirma (com o perdão pela expressão): “É uma merda pensar como o Brasil há 30 anos ou patina, ou piora”.
Ora, o Brasil de hoje é muito melhor do que há 30 anos, mas na sua ignorância ruidosa, o roqueiro faz coro ao discurso da imprensa, que procura incutir no brasileiro um sentimento de automenosprezo.
Funciona assim.

DOCUMENTO SINDICATO JORNALISTAS.

Carta em defesa do livre exercício do jornalismo

“A luta da liberdade contra a tirania é a luta da memória contra o esquecimento”, Milan Kundera
O artigo 1º da lei que regulamenta a profissão de jornalista é claro: “O exercício da profissão de jornalista é livre, em todo o território nacional”. No entanto, neste sábado (10/5), práticas de militares do Exército colocaram em risco a liberdade do exercício do jornalismo, no conjunto de favelas da Maré, na Zona Norte do Rio. A jornalista e diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, Camila Marins, ao lado do cartunista Carlos Latuff e do morador e fotógrafo da agência “Imagens do Povo” Naldinho Lourenço, caminharam pelas ruas da Maré com o objetivo de registrar imagens e fatos sobre possíveis abusos e violações de direitos humanos. Quando notaram o início de uma ação militar de abordagens a moradores, começaram a fotografar. Naquele momento, foram abordados por militares. Um deles, com tom intimidatório, alertou: “Vocês têm autorização? Sem autorização está proibida a cobertura. Vocês precisam ser conduzidos ao CPOR para explicar o motivo de cobertura e pedir autorização!”. O CPOR é o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Rio de Janeiro. Os trabalhadores de comunicação não recuaram diante da abordagem e alegaram falta de fundamentação legal para a condução ao CPOR e cobrança de justificativas para a cobertura. Um dos militares enfim assentiu e liberou os três. Se a equipe foi abordada dessa forma, é nosso dever questionar a violação das liberdades coletivas e individuais que os moradores da Maré têm sofrido todos os dias. Num ano em que lembramos os 50 anos do golpe civil-militar no Brasil assistimos à reprodução de práticas da ditadura. Se lembrar é resistir, resistir é lutar! O jornalismo é um dos pilares para o aprofundamento da democracia e qualquer tipo de impedimento, obstáculo ou violência a esses trabalhadores significa um atentado à democracia e à liberdade de imprensa. O fato de “ter que pedir autorização” para exercer o jornalismo é um retrocesso aos tempos mais sombrios do nosso país. Mais do que isso, é dever e função social do jornalista acompanhar as ações do Estado e reportar à sociedade os respectivos abusos. Diante do exposto, solicitamos esclarecimentos ao Comando Oficial do Exército, ao Ministério da Justiça e ao Ministério da Defesa sobre essa tentativa de cerceamento ao exercício profissional.
 Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro

 

CRISE DA ÁGUA EM SÃO PAULO.


CUT e movimentos propõem ação para cobrar de Alckmin crise da água em São Paulo

14/05/2014

Deputado petista recolhe assinaturas para protocolar pedido de CPI para apurar as perdas de água e contratos da Sabesp com empresas de ex-diretores

A CUT, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e a Central dos Movimentos Populares (CMP) anunciaram hoje (13) que vão organizar uma mobilização para denunciar falta de ação do governo de Geraldo Alckmin (PSDB) sobre a crise de abastecimento que afeta oito milhões de pessoas na capital e na Grande São Paulo. “Vamos nos reunir com os demais movimentos para organizar esse processo. Vamos convocar associação de bairro, igrejas, todos os que podem ser impactados por essa situação”, prometeu o presidente da CUT/São Paulo, Adi dos Santos Lima.
As entidades realizaram um seminário na tarde de hoje, na Assembleia Legislativa de São Paulo, para discutir os impactos da falta de água em São Paulo.
O dirigente cutista disse também que a entidade questionará na Justiça uma possível implementação da multa sobre o consumo de água, por considerá-la inconstitucional. A medida é defendida por Alckmin, como forma de forçar a economia de água da população abastecida pelo Sistema Cantareira, que hoje chegou a apenas 8,6% da capacidade.
Adi considera ainda que a crise de abastecimento pode afetar as empresas na região e o emprego de milhares de pessoas. “A crise pode provocar desemprego, principalmente na região de Campinas, Guarulhos e Jundiaí. E aumento do custo de vida. A água está envolvida em todos os setores industriais, na produção de alimentos. Sem ela, além dos problemas sociais diretos, podemos ter problemas de empresas buscarem lugares com melhor oferta de água”, explicou.
Para os movimentos, a seca no Sistema Cantareira é fruto da má gestão do governo estadual e da Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp). E não somente um problema climático ou culpa da população que gasta demais. “Está faltando mobilização de rua para cobrar do governo estadual esclarecimentos em relação à crise e explicar a falta de investimentos e do acesso à água”, afirmou Benedito Barbosa, coordenador da CMP.
Pessoas presentes ao seminário denunciaram que, embora o governador negue a existência de racionamento de água, a medida é uma realidade na capital paulista.
Jadir Bonancia, morador da Casa Verde, zona norte, e militante do MAB, disse que todas as noites a região fica sem água, contando apenas com as caixas d'água de cada residência. “Nunca fomos informados oficialmente, mas por volta de 22h não tem mais água vindo da rede. E só volta pela manhã”, afirmou.
A situação se repete na Penha, zona leste, onde o pedreiro Clóvis Alves dos Santos, 53 anos, e a família sabem que não podem contar com o abastecimento entre 22h e 7h da manhã do dia seguinte. “Moramos lá há três anos e nunca aconteceu isso. Começou faz três meses”, afirmou.
O aposentado José Gonçalves, 70 anos, morador do Grajaú, na zona sul, contou que seu bairro também fica sem água durante a noite. Pior, ele conhece moradores de Parelheiros, mais ao sul, que estão furando poços para suprir a falta de água. “No Jardim São Norberto, no Jardim São Nicolau, além das ligações de água precárias, tá faltando muita água”, afirmou. A situação se torna mais complicada, porque essa região não é sequer abastecida pelo Sistema Cantareira.
O deputado estadual Marcos Martins (PT) quer investigar essas e outras situações, através de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia. O objetivo principal seria investigar as perdas de água da Sabesp. A companhia tem um contrato de R$ 400 milhões com a companhia japonesa de desenvolvimento – Jica –, executado desde 2009, mas cuja situação continua a mesma: perde-se cerca de 30% da água tratada para a região metropolitana de São Paulo.
Martins também quer investigar a contratação de empresas de ex-diretores da Sabesp, que prestam serviço para a companhia, sobretudo em manutenção de redes. A assessoria de imprensa de Martins informou que 26 parlamentares assinaram a proposta. São necessários 32 para que o pedido seja protocolado.

Fonte: Rede Brasil Atual

JORNALISMO NEGATIVO


Há limite para a pauta negativa?

Escrito por: Venício A. de Lima
Fonte: Observatório da Imprensa
No dia em que fiz o “depósito” da minha tese, exultante por ter conseguido chegar ao final de uma jornada de mais de três anos, caminhei orgulhoso até a Biblioteca Central da Universidade de Illinois, onde era bolsista na seção de América Latina, para contar a boa nova e mostrar o trabalho aos colegas. Uma amiga querida, rigorosa e exigente, bibliotecária da Coleção Afro-americana, que ficava ao lado, pegou a tese e folheou aquele catatau de quase 300 páginas datilografadas. De repente, parou numa página qualquer, apontou uma palavra e, olhando para mim, disse: “Essa palavra está errada. Como pode ‘depositar’ uma tese com erro de inglês? A banca não vai aprovar”. Fiquei perplexo.
Lá se vão 35 anos e nunca me esqueci disso. Continuamos amigos até o seu falecimento precoce anos depois, mas nunca realmente compreendi como podia ter ignorado “o conjunto da obra” e ter feito um julgamento seletivo, com base no erro de grafia de uma única palavra, dentre milhares. Felizmente a previsão de minha amiga não se confirmou e não tive problemas na banca.
A matéria do UOL
Guardadas as devidas proporções, foi esse insólito episódio pessoal que me veio à cabeça quando me deparei com uma matéria, assinada por Aiuri Rebello, na capa do portal UOL, dia 7 de maio, com o título: “Brasília inaugura seu único legado de mobilidade para a Copa no escuro”.
Abaixo do título uma fotografia noturna da região não residencial onde fica o complexo viário que liga a Asa Sul ao aeroporto, ao Lago Sul, ao Park Way e à saída sul do Plano Piloto, com a legenda: “Entrada e saída do túnel sob a rotatória do aeroporto em Brasília foi inaugurada sem luz” (ver aqui).
Esclarecimentos preliminares
Dois esclarecimentos são necessários.
Primeiro: estou convencido de que a matéria citada em nada vai alterar a avaliação dos milhares de brasilienses beneficiados com a obra que acaba de ser inaugurada. A mobilidade/trânsito da região independe do “enquadramento” dessa ou daquela matéria publicada no UOL ou em qualquer outro veículo. Todavia, os eventuais leitores(as) que vivem longe do Distrito Federal poderão, sim, formar uma opinião distorcida da realidade. Aliás, para verificar isso, basta dar uma olhada nos “comentários” que já foram postados no portal UOL.
Segundo: não tenho qualquer tipo de relação com o Governo do Distrito Federal (GDF) e, muito menos, pretendo defendê-lo. Ao contrário. Estou entre os milhares de residentes de Brasília que se decepcionaram com as muitas promessas não cumpridas. No meu caso, sobretudo aquelas relativas à instalação do Conselho de Comunicação Social, previsto na Lei Orgânica do Distrito Federal, e à anunciada transformação de Brasília na “capital do wi-fi”. Promessas nas quais ingenuamente acreditei e sobre as quais escrevi neste Observatório em fevereiro e março de 2011 (ver “Sopro de ar puro no DF“ e “Brasília, a capital wi-fi“) e, já sem qualquer ilusão, novamente em março de 2012 [ver “Lições de um processo em andamento“].
Trata-se aqui da incansável e sistemática pauta negativa que tem orientado a quase totalidade da cobertura jornalística da grande mídia nos últimos meses e sobre a qual também tenho escrito neste Observatório (ver, por exemplo, “O ‘vale de lágrimas’ é aqui“].
Área “desnatada”
As obras inauguradas fazem parte das ações de mobilidade urbana previstas para a Copa, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e sob a responsabilidade do Departamento de Estradas e Rodagem do Distrito Federal (DER-DF). Com 700 metros de extensão, dos quais 300 metros de área coberta, o túnel vai melhorar o fluxo de trânsito na região por onde trafegam cerca de 80 mil veículos e uma média de 160 mil condutores e passageiros, por dia. A via de acesso foi ampliada, foram construídas duas vias marginais e houve também reforma do “balão” do aeroporto. O GDF divulgou que o custo da obra foi de cerca de R$ 54 milhões e a estimativa do DER é de que, com as mudanças na via, haverá redução de 40 minutos no tempo de viagem entre o centro do Plano Piloto e o aeroporto.
A matéria do UOL, contudo, destaca os seguintes pontos:
1. “a única [obra] de mobilidade urbana prevista em Brasília para sair a tempo da Copa;
2. “não há iluminação instalada em um raio de pelo menos 50 metros no entorno da rotatória, o que dificulta a vida de motoristas e pedestres por ali”;
3. “não há uma calçada ou qualquer ponto de travessia próximo para pedestres, como faixa ou passarela”;
4. “não há nenhuma sinalização viária ou placa de qualquer espécie, tanto na rotatória quanto no túnel e suas imediações para indicar os caminhos certos aos motoristas”; e
5. “em agosto do ano passado, o UOL Esporte mostrou que centenas de árvores e plantas nativas do Cerrado e tombadas pelo governo foram desnatadas (sic) durante a obra.”
[Observação: no dicionário Aurélio, “desnatar” significa “tirar a nata a (o leite)”.]
Ser “a única” obra de mobilidade urbana altera o valor intrínseco dela? Na verdade, a obra inaugurada se integra a outras do Expresso DF Sul em fase de testes, no mesmo espaço. Problemas de iluminação e de sinalização, na obra e em seu entorno, sim, existem e, pelo que se vê, tenta-se resolvê-los após a inauguração.
Por outro lado, como sou usuário frequente do acesso do Plano Piloto ao aeroporto, posso garantir que (1) não há fluxo de pedestres na região do túnel inaugurado e (2) não havia como fazer obras no local sem a retirada de “árvores e plantas nativas do Cerrado”. O GDF garante que as 67 árvores [e não “centenas”] da espécie sibipiruna deslocadas para as obras do Expresso DF Sul foram replantadas pela Novacap com sucesso e que foram ainda plantadas 400 mudas de ipês (cores branca, roxa e amarela), 250 palmeiras e 47 flamboyants.
Que jornalismo é esse?
Tenho chamado essa prática de pauta negativa de “jornalismo do vale de lágrimas”.
Em outra ocasião afirmei que “no enquadramento padrão do jornalismo praticado entre nós, até mesmo as notícias eventualmente ‘boas’ são acompanhadas de comentários irônicos e jocosos insinuando que alguma coisa deu ou dará errado, mantendo-se o ‘clima geral’ de que estamos vivendo numa permanente e irrecorrível sequência de sofrimento e purgação de pecados. (...) Por óbvio, o ‘vale de lágrimas’ não é a única característica do jornalismo brasileiro que omite e/ou enfatiza seletivamente aquilo que atende mais ou menos aos seus interesses, implícitos e/ou explícitos”.
Em ano eleitoral, às vésperas da realização de um evento de repercussão global, o que motivaria esse jornalismo que insiste em ignorar aspectos positivos e salientar apenas os que considera “negativos”, verdadeiros ou imaginários?
Afinal, há algum limite para a pauta negativa?
Deixo a resposta com você, caro leitor(a).

13 de maio.


13 de maio, uma mentira cívica

Escrito por: Douglas Belchior
Fonte: Negro Belchior
5% de nós ainda éramos escravos.
Em nossa maioria, já éramos explorados de bárbaras outras maneiras.
E o que viria, do dia seguinte em diante, está aí, 126 anos depois.
13 de Maio é dia de denúncia, de reflexão e de luta.
E para marcá-lo, reproduzo aqui texto garimpado pelo site da Geledes, em que recuperam o brilhante discurso do mestre Abdias do Nascimento, proferido há 26 anos atrás.
Asè para nossos ancestrais!
            
Discurso proferido pelo Senador Abdias Nascimento por ocasião dos 110 anos da Abolição no Senado Federal.
O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ. Pronuncia o seguinte discurso.) – Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, sob a proteção de Olorum, inicio este meu pronunciamento.
Na data de hoje, 110 anos passados, a sociedade brasileira livrava-se de um problema que se tornava mais agudo com a proximidade do século XX, ao mesmo tempo em que criava condições para o estabelecimento das maiores questões com que continuamos a nos defrontar às vésperas do Terceiro Milênio. Assim, a 13 de Maio de 1888, a Princesa Isabel, então regente do trono em função do afastamento de seu pai, D. Pedro II, assinava a lei que extinguia a escravidão no Brasil, pondo fim a quatro séculos de exploração oficial da mão-de-obra de africanos e afro-descendentes nesta Nação, mais que qualquer outra, por eles construída.
Durante muito tempo, a propaganda oficial fez desse evento histórico um de seus maiores argumentos em defesa da suposta tolerância dos portugueses e dos brasileiros brancos em relação aos negros, apresentando a Abolição da Escravatura como fruto da bondade e do humanitarismo de uma princesa. Como se a história se fizesse por desígnios individuais, e não pelas ambições coletivas dos detentores do poder ou pela força inexorável das necessidades e aspirações de um povo.
A tentativa de vender a abolição como produto da benevolência de uma princesa branca é parte de um quadro maior, que inclui outras fantasias, como a “colonização doce” – suave apelido do massacre perpetrado pelos portugueses na África e nas Américas – e o “lusotropicalismo”, expressão que encerra a contribuição lusitana à construção de uma “civilização” tropical supostamente aberta e tolerante. Talvez do tipo daquela por eles edificada em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, quando a humilhação e a tortura foram amplamente usadas como formas de manter a dominação física e psicológica de europeus sobre africano
Na verdade, o processo que resultou na abolição da escravatura pouco tem a ver com as razões humanitárias – embora essas, é claro, também se fizessem presentes. O que de fato empurrou a Coroa imperial a libertar os escravos foram, em primeiro lugar, as forças econômicas subjacentes à Revolução Industrial, capitaneadas por uma Inglaterra ávida de mercados para os seus produtos manufaturados. Explicam-se desse modo as pressões exercidas pela Grã-Bretanha sobre o Governo brasileiro, especialmente no que tange à proibição do tráfico, que acabaria minando os próprios alicerces da instituição escravista. Outro fator fundamental foi o recrudescimento da resistência negra, traduzido no pipocar de revoltas sangrentas, com a queima de engenhos e a destruição de fazendas, que se multiplicaram nas últimas décadas do século XIX, aumentando o custo e impossibilitando a manutenção do sistema.
Foi assim que chegamos ao 13 de maio de 1888, quando negros de todo o País – pelo menos nas regiões atingidas pelo telégrafo – puderam comemorar com euforia a liberdade recém-adquirida, apenas para acordar no dia 14 com a enorme ressaca produzida por uma dúvida atroz: o que fazer com esse tipo de liberdade? Para muitos, a resposta seria permanecer nas mesmas fazendas, realizando o mesmo trabalho, agora sob piores condições: não sendo mais um investimento, e sem qualquer proteção na esfera das leis, o negro agora era livre para escolher a ponte sob a qual preferia morrer. Sem terras para cultivar e enfrentando no mercado de trabalho a competição dos imigrantes europeus, em geral subsidiados por seus países de origem e incentivados pelo Governo brasileiro, preocupado em branquear física e culturalmente a nossa população, os brasileiros descendentes de africanos entraram numa nova etapa de sua via crucis. De escravos passaram a favelados, meninos de rua, vítimas preferenciais da violência policial, discriminados nas esferas da justiça e do mercado de trabalho, invisibilizados nos meios de comunicação, negados nos seus valores, na sua religião e na sua cultura. Cidadãos de uma curiosa “democracia racial” em que ocupam, predominantemente, lugar de destaque em todas as estatísticas que mapeiam a miséria e a destituição.
O mito da “democracia racial”, que teve em Gilberto Freyre seu formulador mais sofisticado, constitui, com efeito, o principal sustentáculo teórico da supremacia eurocêntrica neste País. Interpretando fatos históricos de maneira conveniente aos seus propósitos, deturpando aqui, inventando acolá, sofismando sempre, os apóstolos da “democracia racial” conseguiram construir um sólido e atraente edifício ideológico que até hoje engana não somente parte dos dominados, mas também os dominadores. Estes, sob o martelar do slogan, por vezes acreditaram sinceramente na inexistência de racismo no Brasil. Podiam, assim, oprimir sem remorso ou sentimento de culpa. Esse mesmo mito, com denominações variadas, como “raza cósmica” ou “café con leche”, também contamina as relações de raça na maioria do países da chamada América Latina, resultando, invariavelmente, na hegemonia dos brancos – ou daqueles que assim se consideram e são considerados – sobre os negros e os índios. É assim no México, na Colômbia, na Venezuela, no Equador, no Peru e nos países da América Central e do Caribe. Disso não escapa sequer a Cuba socialista, que pude visitar mais uma vez poucas semanas atrás e onde, a despeito do grande esforço de nivelamento social realizado pela Revolução, hábitos, costumes e linguagem continuam impregnados do perverso eurocentrismo ibérico.
Um dos efeitos mais cruéis desse tipo de ideologia é confundir e atomizar o grupo oprimido, impedindo-o de se organizar para defender seus interesses. Assim, por exemplo, se denuncia a discriminação racial de que é vítima, o negro se vê enquadrado nas categorias de “complexado”, “ressentido” ou mesmo de “perturbado mental”. Algum tempo atrás, poderíamos acrescentar as de “subversivo” ou “agente do comunismo internacional”, estigmas que as instituições repressoras de nosso País tentaram imprimir em minha própria pele e que me obrigaram a viver no exterior por mais de uma década.
Terríveis na sua capacidade de ocultar o óbvio ostensivo, todos esses instrumentos de coerção e imobilização não foram suficientes para impedir que parcelas da população afro-brasileira se tenham organizado, nesses 110 anos desde a abolição, a fim de lutar, por todos os meios possíveis, pela justiça e pela igualdade neste País edificado por seus antepassados. Já tive ocasião de celebrar, aqui mesmo nesta Casa, o aniversário de fundação da maior dentre todas as organizações afro-brasileiras deste século, a Frente Negra Brasileira, que assinalou, ainda na década de trinta, a existência de um pensamento e de uma ação: negros comprometidos em derrubar as barreiras construídas com base na origem africana. Transformada em partido político e fechada com o golpe do Estado Novo, a Frente Negra, em seus acertos e equívocos, balizou o caminho a ser percorrido pelas futuras organizações afro-brasileiras.
Em meados da década dos quarenta, criei no Rio de Janeiro, com ajuda de outros militantes, o Teatro Experimental do Negro, organização que fundia arte, cultura e política na conscientização dos afro-brasileiros, e dos brasileiros em geral, para as questões do racismo e da discriminação, assim como para a valorização da cultura de origem africana. Apesar dos obstáculos que lhe foram interpostos, incluindo a clássica acusação de “racismo às avessas”, o Teatro Experimental do Negro marcou sua trajetória, pelo volume e qualidade de sua atuação, no meio artístico e cultural daquela década e do decênio seguinte, como também no cenário político, sendo diretamente responsável pela primeira proposta de legislação antidiscriminatória no Brasil, mais tarde neutralizada pela malfadada Lei Afonso Arinos.
Minha militância acabaria me rendendo um exílio, do final dos anos sessenta ao início da década de oitenta. Pude então travar contato em primeira mão com toda uma liderança negra, na África, nos Estados Unidos e na Europa, em luta contra o imperialismo, o colonialismo e o racismo. As idéias e ações dessa liderança, que incluía Amílcar Cabral, Samora Machel, Agostinho Neto, Julius Nyerere, Jomo Kenyatta, Léopold Senghor, Wole Soyinka e Sam Nujomo, na África; Malcolm X, Martin Luther King, Amiri Baraka, Stokeley Carmichael e os Black Panthers, na América do Norte – para citar apenas alguns de seus mais destacados expoentes -, encontraram eco no Brasil, estimulando a antiga luta afro-brasileira, agora sob o rótulo de “Movimento Negro”.
Recuperando a tradição das antigas organizações, a exemplo da República dos Palmares, da Frente Negra e do Teatro Experimental do Negro, o Movimento Negro logo se espalhou pelo País, catalisando o idealismo de uma generosa juventude afro-descendente, com grande incidência dos escassos universitários que enfrentavam, na busca de se inserirem no mercado de trabalho, as cruéis contradições de nossa “democracia racial”.
O Sr. Ney Suassuna (PMDB-PB) – V. Exª me permite um aparte?
O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ) – Ouço V. Exª com muito prazer.
O Sr. Ney Suassuna (PMDB-PB) – Senador Abdias Nascimento, no dia 13 de maio gostaria de me solidarizar com V. Exª e com toda a raça da qual V. Exª faz parte, dizendo que a esta raça nós, brasileiros, devemos muito. Todos nós devemos estar conscientes de que deve haver cada vez mais igualdade e mais espaço para ela. Juntos haveremos de construir essa raça brasileira, que é a miscegenação de todas elas. Muito obrigado.
O SR. ABDIAS NASCIMENTO (Bloco/PDT-RJ) – Muito obrigado a V. Exª.
Continuo, Sr. Presidente:
Apesar de todas as dificuldades e resistências, o Movimento encontrava também o apoio de alguns políticos importantes. Dentre eles se destaca Leonel Brizola, responsável, como Governador do Rio de Janeiro, pela mais séria e ousada experiência de enfrentamento do racismo até hoje empreendida no plano do Estado: a criação da Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras, da qual tive a honra de ser o primeiro titular.
Uma das reivindicações do Movimento Negro no plano das políticas públicas tem sido a adoção da chamada “ação afirmativa” – que eu prefiro designar como “ação compensatória” -, objeto, nos últimos tempos, de algumas propostas no âmbito do Legislativo, incluindo o Projeto de Lei do Senado nº 75, de 1997, de minha autoria, atualmente tramitando nesta Casa. Trata-se este, na verdade, de um assunto sobre o qual muito se fala – quase sempre contra – mas do qual, geralmente, pouco se conhece.
“Ação afirmativa” ou “ação compensatória”, é, pois, um instrumento, ou conjunto de instrumentos, utilizado para promover a igualdade de oportunidades no emprego, na educação, no acesso à moradia e no mundo dos negócios. Por meio deles, o Estado, a universidade e as empresas podem não apenas remediar a discriminação passada e presente, mas também prevenir a discriminação futura, num esforço para se chegar a uma sociedade inclusiva, aberta à participação igualitária de todos os cidadãos. Ao contrário do que costumavam afirmar seus adversários, a ação compensatória recompensa o mérito e garante que todos sejam incluídos e considerados com justiça ao se candidatarem a empregos, matrículas ou contratos, independentemente de raça ou de gênero. São seus propósitos específicos: 1) aumentar a participação de pessoas qualificadas, pertencentes a segmentos historicamente discriminados, em todos os níveis e áreas do mercado de trabalho, reforçando suas oportunidades de serem contratadas e promovidas; 2) ampliar as oportunidades educacionais dessas pessoas, particularmente no que se refere à educação superior, expandir seus horizontes e envolvê-las em áreas nas quais tradicionalmente não têm sido representadas; 3) garantir a empresas de propriedade de pessoas desses grupos oportunidades de estabelecer contratos com o governo, em âmbito federal, estadual ou municipal, dos quais de outro modo estariam excluídas.
A ação compensatória na área do emprego implica o recrutamento ativo de mulheres e membros de grupos historicamente discriminados, buscando-se candidatos além das redes convencionais de relacionamento, tradicionalmente dominadas por homens brancos. Ela estimula, por exemplo, o uso de anúncios públicos de emprego para identificar candidatos em lugares em que os empregadores geralmente não iriam procurá-los.
Na área educacional, as medidas de ação compensatória adotadas em outros países, e que se pretende sejam adotadas aqui, são muitas vezes acusadas de constituírem preferências por alunos não-qualificados. Na verdade, porém, também nessa área o objetivo é recompensar o mérito. Recentes estudos de escores obtidos em testes e de notas tiradas no curso secundário – os padrões tradicionais e presumivelmente “objetivos” para mensurar as qualificações de estudantes – têm posto em questão a precisão desses instrumentos em predizer o desempenho futuro de todos os alunos, particularmente de mulheres e de membros de grupos discriminados. Poucos especialistas sustentariam racionalmente que, por si sós, esses escores e médias sejam capazes de medir objetivamente a capacidade e o potencial de um indivíduo. Qual a experiência de vida do candidato? Que obstáculos ele teve de superar? Quais são suas ambições e esperanças? Menos tangíveis do que números, esses padrões são mais precisos em prever o futuro desempenho educacional do que a origem familiar, herança ou outros atributos do privilégio.
Além do falido argumento meritocrático, também se costuma brandir contra a ação compensatória – como aconteceu nesta própria Casa – a tese da inconstitucionalidade. Seria inconstitucional estabelecer qualquer espécie de “discriminação positiva” – outro sinônimo de ação afirmativa – porque isso feriria o princípio da igualdade de todos perante a lei. A primeira resposta a esse argumento vai contra o seu caráter eminentemente conservador. Como se não tivéssemos a possibilidade, o direito, o dever, eu diria, de lutar por mudanças nos dispositivos constitucionais que não nos interessam. Ou como se a igualdade fosse apenas um princípio abstrato, e não algo a ser implementado por meio de medidas concretas. A verdade, porém, é que existem diversos precedentes jurídicos que abrem as portas à implantação da ação compensatória em favor dos afro-descendentes no Brasil. A igualdade de homens e mulheres perante a lei não impede, por exemplo, que estas tenham direito de se aposentar com menor tempo de serviço, nem que disponham de uma reserva de vagas nas listas de candidatura dos partidos. Há também a proteção especial aos portadores de deficiência, a famosa Lei dos Dois Terços – que estipulava uma preferência para trabalhadores brasileiros no quadro funcional das empresas -, sem falar no imposto de renda progressivo e na inversão do ônus da prova nas ações movidas por empregados contra empregadores. Todos casos em que a igualdade formal dá lugar à promoção da igualdade.
Vale ressaltar, neste ponto, que pelo menos três convenções internacionais de que o Brasil é signatário – e que portanto têm força de lei – contemplam a adoção de medidas compensatórias. Uma delas é a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, da Organização das Nações Unidas, cujo art. 1º, item 4, diz o seguinte: “Não serão consideradas discriminação racial as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais ou étnicos (…) que necessitem da proteção que possa ser necessária para proporcionar(…) igual gozo ou exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais (…).”
Teor semelhante tem o art. 2º da Convenção 111 da OIT – Organização Internacional do Trabalho, concernente à discriminação em matéria de emprego e profissão, pelo qual cada signatário “compromete-se a formular e aplicar uma política nacional que tenha por fim promover (…) a igualdade de oportunidades e de tratamento em matéria de emprego e profissão, com o objetivo de eliminar toda discriminação nessa matéria”. E também o art. IV da Convenção Relativa à Luta Contra a Discriminação no Campo do Ensino, da UNESCO: “Os Estados Partes (…) comprometem-se (…) a formular, desenvolver e aplicar uma política nacional que vise a promover (…) a igualdade de oportunidade e tratamento me matéria de ensino.”
Outra postura contrária vem dos que, dando como exemplo a experiência de países socialistas, à ação compensatória costumam contrapor as políticas públicas de combate à pobreza e aos problemas a ela associados – as chamadas políticas redistributivas. Esse argumento, em geral oriundo da Esquerda, é duplamente falacioso. Primeiro porque ninguém, em sã consciência, poderia vislumbrar no horizonte próximo uma revolução socialista no Brasil – condição indispensável à adoção de reformas radicais como aquelas que possibilitaram a alguns daqueles países não acabar com o racismo, mas reduzir a um nível mínimo as desigualdades raciais (o que é diferente) nas áreas do trabalho, da educação, da saúde e da moradia. A outra falácia desse argumento é deixar implícito que se trata de opções mutuamente excludentes – ou ação compensatória, ou políticas redistributivas, quando, de fato, necessita-se de ambas. Com certeza, os afro-brasileiros seriam, por sua inserção social, os grandes beneficiários de quaisquer ações governamentais voltadas à melhoria das condições de vida das grandes massas destituídas. E continuariam precisando de proteção contra a discriminação, bem como de mecanismos capazes de lhes assegurar a igualdade de oportunidades.
Em entrevista publicada semana passada pela revista Veja, em que se discute a situação dos negros neste País, o Presidente Fernando Henrique Cardoso disse não ser contrário ao sistema de quotas, forma mais incisiva de ação compensatória, que constitui a essência do meu projeto de lei. O Presidente foi além dessa declaração e afirmou literalmente: “Havendo duas pessoas em condições iguais para nomear para determinado cargo, sendo uma negra, eu nomearia a negra”. Como é curioso, para dizer o mínimo, observar correligionários do Presidente aqui no Senado manifestando idéias e atitudes absolutamente contrárias às de seu suposto líder e utilizando, para isso, todo um arsenal de argumentos ou intempestivos, ou equivocados, ou desinformados – pois não quero acreditar que sejam maliciosos.
Ao mesmo tempo, pesquisa realizada pelo prestigioso instituto de pesquisa Datafolha, e publicada à página 46 do livro Racismo Cordial, revela não apenas que praticamente metade dos brasileiros de todas as origens étnicas aprova a ação compensatória, mas que essa aprovação chega a 52% entre aqueles que admitiram ter preconceito em relação aos negros. Muito significativo em função da cortina de desconhecimento que cerca o tema, esse resultado indica que o País está mudando, e mais rapidamente do que se quer admitir. E esta Casa, cujos membros têm o dever de acompanhar e até mesmo antecipar as mudanças que o País quer e necessita, não pode ficar se ancorando em velhos chavões para manter um estado de coisas que a maioria da sociedade quer ver superado. Sabemos, eu e meus companheiros de luta, que é árdua a batalha que temos pela frente, no confronto com o reacionarismo, a ignorância e o atraso. Mas estamos dispostos a levar nossa luta a todos os foros, nacionais e internacionais, e a conduzi-la, como alguém já disse, “por todos os meios necessários”.
Assim, neste 13 de Maio, fazemo-nos presentes nesta tribuna, não para comemorar, mas para denunciar uma vez mais a mentira cívica que essa data representa, parte central de uma estratégia mais ampla, elaborada com a finalidade de manter os negros no lugar que eles dizem ser o nosso. A comunidade afro-brasileira, porém, já mostrou claramente que não mais aceita a condição que nos querem impingir. Mais uma prova disso foi dada na madrugada de hoje, quando o Instituto do Negro Padre Batista, juntamente com dezenas de outras organizações, realizou em São Paulo a segunda Marcha pela Democracia Racial, desfraldando a bandeira da igualdade de oportunidades para os afro-descendentes. Assim, ao mesmo tempo em que denuncia as injustiças de que é vítima, nossa comunidade apresenta reivindicações consistentes e viáveis para a solução dos seculares problemas que enfrenta. Reivindicações, como a ação compensatória, capazes de contribuir para que venhamos a concretizar, com o apoio de nossos aliados sinceros, a segunda e verdadeira abolição.
Sr. Presidente, pulei vários trechos para abreviar meu pronunciamento, solicito que a publicação seja feita na íntegra.
Muito obrigado, Sr. Presidente.
Axé!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

ELEIÇÕES SINDIPETRO-RJ

Urgente

Com mais de 60% dos votos, chapa da FNP vence eleição no Sindipetro-RJ

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Sexta, 09 Maio 2014
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A vitória histórica marca o reconhecimento da categoria à disposição de luta da direção do Sindicato dos Petroleiros do Rio

Terminou por volta de meio-dia desta sexta, 9, a apuração da eleição do Sindipetro-RJ para o triênio 2014-2017. A vitória da chapa 1 com 62,89% dos votos válidos demonstrou o reconhecimento no trabalho realizado pela atual direção e na renovação proposta. Também deixou clara a rejeição da categoria à FUP e a sua prática de atrelamento à empresa e ao governo. O grupo apoiado pela FNP teve 1.032 votos contra apenas 609 da concorrente. Na eleição que aconteceu simultaneamente para escolha do Conselho Fiscal outra avalanche de votos da chapa 1 que totalizou 1.057 em contraposição aos 658 da chapa 2.
A vitória devastadora surpreendeu as expectativas de que fosse um pleito mais apertado. A chapa 1 venceu na maioria das unidades do Sistema do Petrobrás e ainda contou com amplo apoio dos aposentados. A vitória no Edifício Sede da companhia, por exemplo, maior colégio eleitoral dos trabalhadores da ativa, foi emblemática.
“A categoria depositou essa confiança no trabalho que realizamos e também nas nossas propostas de mudança. Vamos fortalecer o trabalho de base e a organização da categoria para construir um sindicato ainda mais forte e combativo, o que só é possível com autonomia dos governos” – explica Eduardo Henrique, integrante da chapa 1.
Emanuel Cancella, atual diretor da Secretaria Geral do Sindipetro-RJ e candidato da chapa 1, destacou a necessidade de unificar a categoria com base numa pauta de luta real: “Acabou a eleição e agora precisamos estar todos juntos para defender os interesses da categoria com autonomia e combatividade. Vamos combater as discriminações dentro da categoria e seguiremos também com mais força na luta contra os leilões e contra a privatização do petróleo brasileiro.”
Confira abaixo as tabelas de votação por unidade.
Fonte: Agência Petroleira de Notícias
Fotos: Samuel Tosta / Agência Petroleira de Notícias

domingo, 11 de maio de 2014

AUDIÊNCIA PÚBLICA EM MARICÁ.

Aos interessados,


  No dia 13/05 as 18h haverá  audiência pública no Esporte Clube de Maricá, na rua Álvares de Castro, 172 - Centro ( proximo a praça Central )  sobre o EIA/Rima da atividade de Produção e Escoamento de Petróleo e Gás Natural do Polo Pré- Sal da Bacia de Santos
( as Cidades de Niterói, Maricá, RJ estão nesta Bacia )
Informoque estão disponibilizado ônibus pelo 0800 7700112



Fontes: Jornal O Fluminense dia  07/05/13 pag. 11

Abração,

Geógrafo Vagner Fia - APEDEMA-LESTE
Conselheiro do CONMAM
tel. 9915-4820

sexta-feira, 2 de maio de 2014

MARCO CIVIL DA INTERNET

Marco Civil da internet muda relação de consumo

Escrito por: Redação
Fonte: Jornal do Commércio (PE)

Lei sancionada na semana passada entra em vigor em 60 dias e dá mais direitos aos usuários

Apesar das dúvidas em torno da regulamentação, o Marco Civil da internet (Lei 12.965/2014), sancionado na semana passada, trouxe avanços para os consumidores, na opinião de especialistas. De forma geral, a principal mudança é que o usuário pagará pela velocidade contratada com o provedor, não pelo tipo de serviço ou site que acessa. Isso porque um dos princípios da proposta é garantir a neutralidade de rede, ou seja: o tráfego de qualquer dado deverá ser feito com a mesma qualidade e velocidade.

"Até então, os provedores podiam guiar o fluxo de acessos para um site. Por exemplo, um provedor poderia jogar para o site 'x' uma banda mais rápida do que a do 'y'. Se um usuário tem uma experiência de navegação melhor com o 'x', vai privilegiá-lo. Agora, o pacote de dados terá de ser tratado de forma isonômica entre os sites", alerta o advogado Caio Cesar Carvalho Lima, do Opice Blum Advogados Associados, escritório especializado em Direito Eletrônico. A partir da vigência da lei, portanto, não será mais possível acordo comercial para privilegiar uma página específica.

O texto prevê discriminação apenas em casos específicos, como priorização de serviços de emergência. Por exemplo, vários torcedores estão em um estádio assistindo a um jogo de futebol. O provedor poderá colocar um pacote de dados maior em um site que permite acionar uma ambulância do que para o site que está transmitindo a partida. As regras claras para estes casos devem ser determinadas quando a regulação, que ficará a cargo da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), for publicada.

Além disso, o Marco Civil também determina que os provedores terão de garantir a qualidade da internet oferecida. O advogado conta que, até então, muitos contratos previam que a empresa pudesse oferecer apenas um percentual do pacote de dados contratado. Por exemplo, o internauta pagava por 10 Mb, mas o próprio contrato permitia ao provedor disponibilizar apenas 10% do total. Agora, o serviço deverá ser ofertado por completo, sem brechas.

Ainda seguindo o critério de neutralidade, as operadoras não poderão oferecer pacotes mais rápidos para acessar um determinado tipo de página, como redes sociais.

Quanto às promoções que dão acesso de graça a algum conteúdo, como ao Facebook, é preciso aguardar a regulamentação, avalia o advogado. É que outro princípio do Marco Civil é a garantia da privacidade do usuário. As empresas não poderão mais espiar, sem prévia autorização, o conteúdo acessado pelos usuários para fazer, por exemplo, marketing direcionado. "Como o provedor vai liberar o acesso gratuito ao Facebook, se ele não pode ver por onde o internauta navega?", questiona o advogado.

Espera-se que a regulamentação seja publicada até junho, quando a nova lei entrará em vigor, já que foi dado um prazo de 60 dias para as empresas se adequarem.