sexta-feira, 26 de abril de 2019

UMA HISTÓRIA DE CRIMES...

O que são e como atuam as milícias do Rio de Janeiro André Cabette Fábio 10 Abr 2018 (atualizado 19/Dez 14h28) No sábado, 159 pessoas foram presas, suspeitas de integrarem a Liga da Justiça, a maior milícia do estado FOTO: POLÍCIA CIVIL/DIVULGAÇÃO PESSOAS PRESAS SOB FLAGRANTE PELA POLÍCIA CIVIL   Nas últimas semanas, uma série de ações policiais tem colocado sob os holofotes a atuação das milícias que, assim como facções, impõem um poder paralelo com uso da violência no Rio de Janeiro. O estado se encontra sob intervenção federal na área de segurança. Na madrugada de sábado (7), a Polícia Civil realizou uma ação em uma festa que reuniu 400 pessoas em um sítio alugado em Santa Cruz, na zona oeste do município do Rio. Quatro pessoas foram mortas após troca de tiros de cerca de meia hora, na qual granadas foram atiradas contra a polícia. Após a triagem dos frequentadores da festa, 159 pessoas foram presas sob flagrante. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, a Polícia Civil suspeita que eles sejam membros da maior milícia do estado, a Liga da Justiça. Na ação, Wellington da Silva Braga, o “Ecko”, ou “Didi”, conseguiu fugir. Ele é apontado como líder do grupo, que atua na zona oeste do Rio, em municípios da Baixada Fluminense e da Costa Verde. Polícia Militar, Bombeiros, Exército e Aeronáutica Como outras milícias, a Liga da Justiça tem entre seus quadros membros de forças de segurança, como policiais e bombeiros militares, que abrem canais de influência sobre o Estado. Segundo o jornal O Globo, foi encontrada na ação de sábado a carteira funcional de um soldado de uma Unidade de Polícia Pacificadora da Polícia Militar. E outra de um sargento do 27º Batalhão da Polícia Militar, sua carteira de motorista, e um certificado de registro de arma de fogo em seu nome. A suspeita da Polícia Civil é de que os policiais sejam seguranças de Ecko. Foram encontradas também cinco fardas da Polícia Militar, um colete balístico com emblema da instituição e um boné com o símbolo da Polícia Civil. Dois soldados do Exército, um militar da Aeronáutica e um bombeiro suspeitos de participar da Liga foram presos. Os nomes não foram revelados. Também foram apreendidos 11 carros roubados, 24 armas, 76 carregadores de armas e 1.265 munições. Milícias crescem e diversificam atuação criminosa Em um trabalho de 2007 intitulado “Favelas sob controle das milícias no Rio de Janeiro”, as pesquisadoras Alba Zaluar e Isabel Siqueira Conceição afirmam que as milícias têm semelhanças com os grupos de extermínio que também eram formados por policiais desde os anos 1960 no estado. Mas se diferenciam destes porque exercem um controle militar mais profundo sobre as comunidades pobres que dominam. 88 Comunidades são controladas atualmente por milícias no Rio de Janeiro, segundo levantamento do Ministério Público estadual citado por O Globo. Em 2010, esses grupos controlavam 41 comunidades As milícias extorquem as populações desses locais, das quais cobram por suposta segurança, comissões ilegais sobre venda de botijões de gás, água, TV a cabo ilegal, ou “gatonet”, e transporte. Esses grupos também estão envolvidos na grilagem de terras de reservas ambientais pertencentes à União, extração de pedra e saibro nessas áreas, venda das terras com registro legal, venda de material de construção, e construção de imóveis. Milícias também atuam em casos de furto de petróleo cru que passa pelas tubulações da Petrobras após extração na costa do Rio de Janeiro, e na comercialização de mercadorias ilegais. Em 2008, a CPI das milícias da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro indiciou 226 pessoas por envolvimento nesses grupos, entre elas deputados estaduais e vereadores. Segundo O Globo, um inquérito aberto em março de 2018 pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas investiga se uma ação de despejo que usou máquinas para derrubar imóveis no condomínio Village Atlanta, em Santa Cruz, teria sido realizada por milicianos interessados nos imóveis. A ação contou com pessoas vestindo uniformes da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) e da Defesa Civil, mas não foi autorizada pela prefeitura. Uma linha de investigação liga caso Marielle às milícias A vereadora Marielle Franco (PSOL) foi assassinada no dia 14 de março no centro do Rio de Janeiro junto a Anderson Pedro Gomes, motorista do carro onde estava. Mas, até agora, a Polícia Civil não apontou suspeitos. Uma das linhas de investigação é de que a violência seria resposta ao apoio que a vereadora dava a um coletivo de mulheres que debatiam um projeto da prefeitura para verticalização da comunidade de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio de Janeiro. Em seu trabalho de 2007, Zaluar e Conceição apontam que, na década de 1990, Rio das Pedras foi uma das primeiras comunidades do Rio de Janeiro com atuação de um grupo com moldes de milícia, comandado então pelo inspetor da Polícia Civil Félix Tostes. Ele foi assassinado em 2008, pouco após ser afastado da instituição. Segundo O Globo, os comandantes atuais da milícia local não viam com bons olhos a perspectiva de desapropriação de imóveis seus para realizar obras de saneamento básico. Os planos foram abandonados pela prefeitura. No domingo (8), o líder comunitário da Taquara, bairro da zona Oeste do Rio, Carlos Alexandre Pereira Maria, ou “Alexandre Cabeça”, foi executado aos 37 anos. Seu corpo foi encontrado em um carro em Jacarepaguá, um daqueles em que fica Rio das Pedras. Ele é suspeito de ligação com uma milícia, e era colaborador do vereador Marcello Siciliano (PHS), ouvido na semana passada pelos policiais civis que conduzem o inquérito sobre o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Segundo o jornal Extra, Siciliano também foi citado em um relatório da Secretaria de Segurança sobre a influência de milicianos nas eleições de 2014. Agora, a morte de Gomes e sua ligação com Siciliano e possível ligação com milicianos está sendo investigada pela mesma equipe responsável pelo caso de Marielle e Anderson. O Nexo conversou com dois pesquisadores para entender melhor o que são as milícias, e qual seu papel no Rio de Janeiro. Thais Duarte é pós-doutoranda da Universidade Federal de Minas Gerais. Ela é autora, em parceria com Ignácio Cano, do livro “‘No Sapatinho’: A evolução das milícias no Rio de Janeiro (2008-2011)”, lançado em 2012 pelo Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Rio de Janeiro José Cláudio Souza Alves é sociólogo e professor da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro). Ele é autor do livro “Dos Barões ao Extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense”, publicado em 2013. O que são milícias? Em que elas diferem das facções e outros grupos criminosos? JOSÉ CLÁUDIO SOUZA ALVES O tráfico de drogas se fortalece no final dos anos 1970.  A milícia é mais recente e com uma estrutura mais por dentro do poder do Estado. Traficantes são [tratados como] facínoras, presos ou mortos. Milicianos não, não há investigação deles por conta dessa penetração e dos interesses econômicos que passam a ser movimentados. Entre 1995 e 2000 há um protótipo das milícias. Elas ainda estão se formando, associadas a ocupações de terras urbanas pela população empobrecida, sem acesso à habitação, sem apoio de políticas públicas e sociais, sem luz, água, transporte e com necessidade de garantir a sobrevivência na zona oeste do Rio e na Baixada Fluminense. Eu vejo nos esquadrões da morte elementos muito similares às milícias. Eles passam a se estruturar com forte presença de policiais militares, civis, bombeiros, mas com menos organização. Há um jogo político de atuação e controle nessas áreas, e lideranças emergindo, algumas delas eleitas, mas sem o perfil do que vai se formar. A partir de 2000 há um fortalecimento determinante em [a comunidade] Rio das Pedras, em [o bairro de] Jacarepaguá. Inicialmente, a milícia é tomada como uma medida de autodefesa cidadã, e defendida por figuras como [o ex-prefeito] César Maia, que dava certo apoio à prática em blogs ligados a ele. Em seguida isso foi sendo desmontado, com a percepção de como esses grupos atuavam. Houve o sequestro e a prisão em cativeiro de jornalistas de [o jornal] O Dia, que faziam matérias sobre as milícias em uma favela chamada Batam, na zona oeste. Eles estão associados a agentes de segurança do estado e começam a se projetar politicamente. Em 2008 houve a CPI das milícias, com [protagonismo de] Marcelo Freixo [PSOL]. 287 indivíduos, entre eles parlamentares, deputados estaduais, são denunciados. A partir daí as milícias têm uma atuação mais silenciosa, menos ostensiva. Mas elas nunca deixaram de crescer. THAIS DUARTE As características da milícia podem ser resumidas em cinco traços centrais: Domínio territorial e populacional de áreas por parte de grupos armados irregulares. Coação, em alguma medida, contra os moradores e os comerciantes. Motivação de lucro individual como elemento central, para além das justificativas retóricas oferecidas. Discurso de legitimação relativo à libertação do tráfico e à instauração de uma ordem protetora. Diferentemente do tráfico, por exemplo, que se impõe simplesmente pela violência, as milícias pretendiam se apresentar como uma alternativa positiva. Participação pública de agentes armados do Estado em posições de comando. O narcotráfico coincide plenamente nos três primeiros elementos e se diferencia das milícias basicamente por três motivos: a) não pretende se legitimar pela instauração de uma ordem protetora, muito embora ele também exerça uma função normativa nas comunidades; b) diferentemente das milícias, ele interioriza o seu papel como socialmente desviado e como questionável no terreno moral;  c) a participação de agentes públicos no tráfico é secundária e relativamente sigilosa, enquanto que a identidade das milícias está construída em torno do pertencimento dos seus membros às corporações de segurança pública. Qual é o poder das milícias no Rio de Janeiro? JOSÉ CLÁUDIO DE SOUZA ALVES Quando falo crime organizado, falo de uma estrutura de poder econômico, político e cultural que favorece grupos que se fortalecem com controle militarizado de áreas. Esses grupos começam a oferecer proteção, cobrando por isso. Avançam na oferta de serviços urbanos, gás, água, TV a cabo clandestina, venda de terrenos. Articulam várias formas de ganhos [financeiros] e estruturas de poder. Hoje as milícias têm lixões clandestinos, vendem terrenos e terras da União, com uma estrutura cartorial forte, têm máfias de roubo de combustível de oleodutos da Petrobras, têm assentos em secretarias municipais na Baixada e força parlamentar, com vereadores e deputados. Eles influenciam a lógica política e fazem alianças com grupos econômicos que se valem deles para garantir segurança e proteção. Essa estrutura só existe pela presença direta dos agentes de segurança do aparato policial, que fazem parte dessa estrutura e favorecem determinados grupos. Eles praticam o “arrego”, o suborno, fornecem armas e montam esquemas dentro da estrutura do estado. As UPPs nunca atuaram em áreas da milícia, mas em áreas com venda de drogas e controle de facções, como o Comando Vermelho, e favoreceram uma reconfiguração da geopolítica do crime no Rio de Janeiro. Áreas de fora do Rio de Janeiro compensam a perda das áreas de UPPs onde se vendiam drogas; a Baixada é uma delas. O [aumento do] número de mortes está associado à disputa dessas áreas de fronteiras do crime organizado. THAIS DUARTE De acordo com uma pesquisa publicada em 2012, realizada pelo Laboratório de Análise da Violência da UERJ (LAV/UERJ), as milícias têm forte poder em determinados territórios do estado do Rio de Janeiro, sobretudo, os localizados em áreas de periferias. Controlam, assim, serviços, como a TV a cabo e a distribuição de botijões de gás, bem como cobram taxa a moradores e comerciantes, sob a justificativa de garantir uma “segurança” em relação a outros criminosos, como assaltantes e traficantes. Uma diferença da ação de milicianos em relação a outros tipos de criminosos é a sua capacidade de infiltração nos quadros do Estado. Não à toa, as milícias são formadas, sobretudo, por agentes de segurança pública, o que lhes garante boa capacidade de interlocução com atores públicos, abrindo margem à corrupção, bem como maior conhecimento do funcionamento do Estado, dificultando a desarticulação de seus grupos. Para além de estarem inseridos no aparato de segurança do Estado, há milicianos presentes em outras instâncias, como o parlamento, por exemplo. Durante e logo após a CPI das Milícias em 2008, alguns vereadores e deputados foram presos por envolvimento com esses grupos. De fato, sob a aura de uma pretensa representatividade em relação às comunidades das quais fazem parte, os milicianos se candidatam a cargos no Legislativo e, assim, garantem maior estabilidade, poder e legitimidade no controle das milícias locais. Isso é um ponto para ser observado em relação às eleições de 2018.   Milícias têm ligações com quadros das polícias. Isso é um argumento a favor da intervenção federal na segurança no RJ? JOSÉ CLÁUDIO SOUZA ALVES Da forma como ocorre, a intervenção diz que a Segurança Pública do Rio é parceira e aliada. Mas eles são os principais responsáveis pela estrutura das milícias. Não tenho a menor ideia de como intervir nesse quadro quando os trata como parceiros e aliados. Você não atua sobre os milicianos sem atacar a sustentação econômica e política que eles têm, com representantes em estruturas do Executivo e Legislativo fazendo negociações dentro do Estado. Enquanto puderem vender terras onde Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] e Secretaria de Patrimônio da União não fiscalizam, e enquanto o Ministério Público não fizer ações contundentes, eles vão continuar ganhando dinheiro. Enquanto comerciantes e moradores que se recusarem a pagar segurança forem assassinados, eles vão continuar atuando. Enquanto o Detran [Departamento de Trânsito do Estado] não agir contra o poder deles sobre o transporte clandestino, enquanto a distribuição de água e gás continuar sob o monopólio deles, eles vão continuar atuando. Essa prisão de 159 pessoas não expressa uma mudança significativa desse cenário, que tem dimensões mais profundas e amplas. É preciso uma nova fase da intervenção, que por enquanto tem se pautado pelo controle de populações pobres em áreas pobres, como se o controle do tráfico de drogas fosse o único problema da segurança pública. THAIS DUARTE A intervenção federal militar não se justifica sob qualquer argumento, muito menos por as milícias apresentarem quadros na polícia. Há capitais no país, como as nordestinas, muito mais violentas em relação ao Rio de Janeiro, conforme disposto, por exemplo, pelo último Mapa da Violência. Estes locais talvez merecessem uma atenção mais acurada do governo federal, mas sem sofrer intervenções militarizadas. Em ações de segurança pública, deveriam ser priorizadas medidas de inteligência e prevenção à criminalidade, mudando o foco atual, cuja base é a repressão violenta, sobretudo, do traficante de drogas. A guerra às drogas é o cerne das atividades de segurança pública executadas no país, em específico, no Rio de Janeiro. Ensejam, ainda, fortes preocupações o fato de forças de segurança nacional, como o Exército, realizarem ações de segurança pública, havendo vozes, inclusive, que indicam para a inconstitucionalidade de tal medida. De fato, o Brasil já presenciou momentos em que as forças armadas realizaram tarefas de segurança pública. Na Ditadura Civil Militar, as ações de segurança pública eram embebidas na doutrina de segurança nacional, resultando em inúmeros casos de tortura, desaparecimentos forçados e mortes. Também com o lema da “lei e da ordem”, no Rio 92, nos Jogos Pan-americanos de 2007 e no período dos eventos esportivos de 2014 e 2016, o Exército ocupou favelas do Rio de Janeiro, a partir de uma articulação entre o governo federal e estadual. Com isso, no Complexo do Alemão, por exemplo, o Exército estava liberado pela Justiça a realizar busca e apreensão nas casas, bem como a ocupá-las. Ainda, poderia fazer investigações sobre o tráfico, fazer bloqueios de acesso pela favela e realizar prisões. O efeito disso foi um acirramento da violência em favelas do Rio de Janeiro, tendo sido comuns relatos de atos truculentos e uso abusivo da força contra moradores. Em suma, a intervenção federal militar é injustificável. E, por sua vez, a principal forma de desarticular as milícias é sufocar sua capacidade de geração de renda. EXPRESSO Qual a lógica operacional da intervenção federal no Rio 

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O CONDADO EM RISCO..

Milícia no Rio de Janeiro: como é a vida em Rio das Pedras, bairro dos suspeitos da morte de Marielle

Rio das PedrasDireito de imagemAFP
Image captionRio das Pedras foi uma das primeiras áreas da cidade a ser controlada por milícias
Quando deixou sua cidade no Nordeste, ainda jovem, rumo ao Rio de Janeiro, Zélia (nome fictício) sabia da fama de perigosa que a cidade carregava, mas tinha ouvido falar que o lugar onde se instalaria, Rio das Pedras, perto da Barra da Tijuca, na zona oeste, era mais calmo.
Sua fama de "favela tranquila" não se deve à ausência de violência, mas à imposição de certa ordem pela força e pelo medo, não do tráfico, mas da milícia, grupo armado violento formado por integrantes e ex-integrantes de forças de segurança do Estado, como policiais, bombeiros e agentes penitenciários.
Apesar de ser a terceira maior favela da cidade, atrás de Rocinha e Maré, Rio das Pedras não costumava frequentar o noticiário nacional como as outras duas, marcadas por disputas entre facções criminosas e entre criminosos e policiais.
Nos últimos meses, no entanto, Rio das Pedras vem se tornando mais conhecida. Em janeiro, o Ministério Público e a Polícia Civil do Rio prenderam lideranças de uma milícia que atua ali, no bairro vizinho de Muzema e adjacências.
Investigações mostraram que Rio das Pedras é a sede do chamado Escritório do Crime, suposto grupo de extermínio formado por policiais reformados ou na ativa que pode ter sido responsável pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, que aconteceu em março de 2018 e até hoje, 11 meses depois, não foi esclarecido.
Rio das PedrasDireito de imagemGABRIEL JÁUREGUI
Image captionA população de Rio das Pedras cresceu atraída pelas oportunidades que surgiam na região da Barra da Tijuca, bairro próximo
A polícia encontrou imagens que mostram o carro usado pelos assassinos passando por um via que margeia a favela.
Outro motivo que fez país voltar o olhar para o lugar é por sua aparente conexão com o poder. Segundo o jornal O Globo, Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) - filho do presidente Jair Bolsonaro - ficou abrigado ali após vir à tona que ele fora citado em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) devido a uma movimentação atípica de valores em sua conta.
Em 2005, o filho do presidente homenageou o policial suspeito de integrar a milícia, Adriano Magalhães da Nóbrega, entregando a ele a medalha Tiradentes, uma honraria concedida pelo Estado do Rio a pessoas que prestaram bons serviços públicos. Alvo da operação policial deflagrada em janeiro, Nóbrega está foragido.

Como é morar em Rio das Pedras hoje

Rio das PedrasDireito de imagemGABRIEL JÁUREGUI
Image captionHoje é a terceira maior favela do Rio, segundo estimativa da Prefeitura com base no IBGE de 2010. Tem 63.484 moradores, boa parte deles de origem nordestina
Desde 1951, quando começou a ser ocupada, a favela de Rio das Pedras cresceu muito, e rapidamente, acompanhando o desenvolvimento da cidade na zona oeste. Seu nome se deve ao rio que a atravessa, que nasce na floresta e deságua na Lagoa da Tijuca.
No início, era ocupada por pescadores, diz Jorge Jáuregui, arquiteto responsável pelo projeto de urbanização Favela-Bairro, implementado (mas não concluído) na década de 1990.
Sua população, esparsa durante a década de 1960, foi aumentando atraída especialmente pelas oportunidades que surgiam na região da Barra da Tijuca, bairro próximo e que passou por um boom de construção civil nas décadas seguintes. Muita gente veio também de outras favelas, numa época em que o poder público adotava uma política de remoção, segundo dissertação de mestrado em arquitetura pela USP de Izabel Mendes.
Cresceu até se tornar a terceira maior favela do Rio, segundo estimativa da Prefeitura com base no IBGE de 2010. Tem 63.484 habitantes, boa parte deles de origem nordestina. Moradores contam que até hoje há um ônibus que faz semanalmente viagens de e para o Ceará direto do bairro.
A presença nordestina é perceptível em qualquer ponto do bairro, nos sotaques das pessoas, no forró das caixas de som. As ruas são agitadas.
Rio das PedrasDireito de imagemTÂNIA RÊGO/AGÊNCIA BRASIL
Image caption'Os moradores daqui têm uma cultura de trabalho muito forte, e isso faz com que haja muito comércio e muita atividade, 24 horas por dia', diz uma moradora
Marta (nome fictício) veio de um Estado do Nordeste depois de se casar com um homem que já morava em Rio das Pedras. Célia (também nome fictício) veio ainda adolescente, deixando para trás uma vida de doméstica pela qual ganhava R$ 150 por mês.
Elas e outros moradores com quem a BBC News Brasil conversou dizem que sabem que a região é controlada por milicianos, que isso é comentado em conversas, mas não lidam diretamente com eles e não têm sua vida afetada por suas atividades.
"Às vezes a gente fica sabendo que alguém fez alguma coisa errada - roubou, vendeu droga, algo assim -, e aí essa pessoa some", diz uma delas.
"Uma vez, era cedo de manhã, vi dois homens numa moto atirarem nos pés de outro homem que estava em pé em frente a um bar. Aqui é assim, eles avisam uma vez, duas vezes, na terceira te pegam", diz outro morador. "Você leva uma vida tranquila, mas não pode fazer coisas que eles acham ruins. Acostumar, a gente não se acostuma, mas vive um dia após o outro."
A violência lá é presente, mas mais velada do que em outras favelas, dizem.
"Não tem gente armada na entrada e nas ruas que nem em outros lugares. Se pudesse, me mudaria para um bairro melhor, mas tenho amigos que moram em favelas como a Rocinha e sei que a vida deles é mais difícil. Eles passam noites em claro ouvindo tiroteio, às vezes não sabem se podem sair de casa para o trabalho. Aqui pelo menos não tem isso."

O que é a milícia e por que Rio das Pedras é considerado seu 'berço'

Rio das PedrasDireito de imagemNATASHA MONTIER/GOVERNO DO ESTADO DO RIO
Image captionMoradores com quem a BBC News Brasil conversou dizem que sabem que a região é controlada por milicianos. 'É um lugar mais tranquilo, mas às vezes some alguém que fez algo errado'
É comum ouvir que Rio das Pedras é o berço das milícias do Rio. Ainda que não seja possível afirmar isso categoricamente, é consenso entre pesquisadores que esses grupos têm décadas de atuação no bairro. O modelo de poder paralelo, à margem do estado mas com a participação de membros dele, hoje é forte principalmente na zona oeste da capital e na Baixada Fluminense.
"Estes grupos podem ter 20, 30 ou até 40 membros. São pessoas que de alguma forma têm acesso privilegiado a armas e bons contatos na polícia, o que lhes confere proteção. Eles ocupam uma área sob a justificativa de que proporcionarão a segurança que o Estado não é capaz de fornecer, deixam um grupo armado no local e partem para outras áreas para invadi-las", diz Michel Misse, diretor do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
As milícias têm como objetivo principal o lucro, obtido a princípio pela cobrança da proteção oferecida nestes locais.
"Eles chegam dizendo que trarão a paz, mas isso tem um preço, que é a taxa de segurança imposta a moradores e comerciantes. Quem se opõe, é morto. Depois, as milícias percebem que podem criar um negócio mais amplo e ampliam o portfólio de suas atividades", explica o sociólogo José Cláudio de Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
O pesquisador diz que atualmente as milícias estão envolvidas na oferta de uma variedade de serviços, como venda de água, gás e cestas de alimentos, transporte clandestino, TV a cabo e internet piratas, roubo e refino de petróleo cru para fabricação de combustível, coleta de lixo e também na apropriação de terras públicas e privadas abandonadas ou sem uso, que são loteadas e vendidas ilegalmente.
Rio das PedrasDireito de imagemGABRIEL JÁUREGUI
Image captionO pesquisador Ignacio Cano diz que as eleições lá acontecem da mesma maneira que em outros territórios controlados por grupos armados: "faz campanha quem eles (milicianos) querem"
No início, esses grupos não eram chamados de milícia, mas de "polícia mineira".
"Num primeiro momento, surgiram grupos que são protótipos de milícia, associados a ocupações urbanas de terra, liderados por civis. Eles constroem relações com a população e elegem lideranças, sempre matando e fazendo o uso da violência. A partir dos anos 2000, o modelo atual, liderado por pessoas ligadas às forças de segurança, começa a emergir", diz Alves.
Seguindo linha parecida com a de Alves, o sociólogo Ignacio Cano, que também pesquisou milícias no Rio, diz que o modelo era um pouco diferente do de hoje. "Havia nas polícias mineiras não só forças de segurança mas também líderes comunitários que não eram policiais." Um exemplo de Rio das Pedras era Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho, candidato da associação de moradores eleito vereador em 2004 e assassinado em 2009.
Quando começou a fazer pesquisa em Rio das Pedras, na década de 1990, Cano diz já havia um grupo que controlava o território.
O tipo de atividade era diferente naquela época. "Não ia na linha de pagamento de taxas por serviços, como hoje, era mais um controle imobiliário. Controlavam todas as transações - quem podia construir onde etc. Hoje é um modelo mais invasivo, que lucra a partir de qualquer coisa", diz Cano.
Esses grupos, diz Cano, impunham medo e criavam certa estabilidade na região. Não deixavam que traficantes de drogas se estabelecessem e eram a principal autoridade local.
Rio das PedrasDireito de imagemGABRIEL JÁUREGUI
Image captionEm 2002 e 2003 a associação de moradores fez uma campanha de regularização e transferência de títulos eleitorais dos moradores de Rio das Pedras
"O Nadinho dizia, 'aqui o povo vem do Nordeste, é um povo ordeiro, que não gosta de tráfico'. Eles impunham ordem, expulsavam o tráfico, diziam o que podia ou não fazer, havia um projeto moral - decidiam se podia ouvir certas letras de música ou não, coisas assim. Diretores de escola, quando não conseguiam ônibus para os alunos, iam falar com a milícia e eles providenciavam. Há depoimentos que mostram que, quando crianças estavam aprontando na escola, chamavam a milícia para mandar uma mensagem."

Problema crescente

Cano diz que havia também certa condescendência do poder público em relação a esses grupos. "O Cesar Maia (ex-prefeito do Rio) dizia que eram um mal menor."
Depois que funcionários do jornal O Dia foram torturados por milicianos, essa postura mudou. Entre 2006 e setembro deste ano, 1.709 pessoas foram presas por ligações com milícias, e os milicianos foram obrigados a adotar um perfil mais discreto, diz Cano.
Rio das PedrasDireito de imagemGABRIEL JÁUREGUI
Image captionEntre 1998 e 2002, a Prefeitura implementou, mas não concluiu, projeto de urbanização de Rio das Pedras
Alves acha que o fortalecimento da milícia em Rio das Pedras tem a ver com o acelerado crescimento populacional da favela e a demanda por terras.
"É uma comunidade que se expande muito rápido, tem um mercado imobiliário pujante. A milícia tem acesso ao mapa da região e começa a ver onde pode montar negócios, ocupar o solo urbano, é um grande negócio."
Rio das PedrasDireito de imagemGABRIEL JÁUREGUI
Image captionPolíticos foram, por muitos anos, condescendentes com a milícia, dizendo que ela era um 'mal menor' do que o tráfico
Segundo o estudo Favelas Sob o Controle das Milícias no Rio de Janeiro, de Alba Zaluar e Isabel Siqueira Conceição, em 2002 e 2003 a associação de moradores fez uma campanha de regularização e transferência de títulos eleitorais dos moradores de Rio das Pedras, já que boa parte deles vinha do Nordeste. A intenção era eleger Nadinho, o que deu certo.
O estudo sugere que teria sido a partir daí que começou "a grande expansão da milícia". Elas assumiram controle territorial em outros bairros, às vezes tomando-os de traficantes. Também foi a partir de então que entraram de vez para a política - outras favelas dominadas por milícias começaram a eleger representantes para o Legislativo da cidade e do Estado.
Cano diz que as eleições lá acontecem da mesma maneira que em outros territórios controlados por grupos armados: "faz campanha quem eles (milicianos) querem".
*Colaborou Rafael Barifouse
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